|
Biografia do Autor: AS "STORIAS MINDLENSES" DE ZIZIM FIGUEIRA José Figueira Júnior, vulgo Zizim Figuera é natural de S. Vicente, Cabo Verde, onde nasceu a 8 de Janeiro de 1939. Desde há alguns anos residente em França (9 Place de la Croix des Mèches - 94000 Créteil - France - telefone 00 33 1 49 81 71 75), José Figueira fez os estudos liceais no Gil Eanes, em S.Vicente, e viveu 15 anos na ilha do Sal, tendo depois fugido para França, porque estava comprometido, politicamente, com os ideais da Independência do seu país natal.
Formou-se em Ciências Geográficas e fez o mestrado em Geofisicas, não tendo feito Doutoramento por razões financeiras e familiares. Foi também um dos fundadores da Associação Cabo-Verdiana em França, um baluarte ao serviço da nossa comunidade e ainda hoje continua a ajudar os seus compatriotas.
--------------------------------------------------------------------------------------- Impor um crioulo padrão à literatura cabo-verdiana é um procedimento insensato e contrário à evolução natural de uma língua, e, convenhamos, condenado provavelmente ao insucesso. Um padrão será obviamente necessário à afirmação do crioulo como língua literária a impor-se em todo o Arquipélago.
Mas não pode é ser imposto, terá de se impor
por si próprio, lenta e gradualmente, com avanços e
porventura recuos e ajustamentos, à custa da iniciativa dos
criadores literários. Há quem actualmente pense e defenda que a ascensão do crioulo a língua literária e a escolha do idioma padrão se devam impor por via legislativa. Muitas dúvidas tem suscitado esta questão e não acredito numa solução pacífica nem mesmo num futuro mais ou menos distante.
O busílis do problema, porventura o mais sério, é
exactamente o idioma padrão a eleger e a ser aceite pela população
em geral e pelos criadores literários em particular, sabendo-se
como se sabe que não é despicienda a diferença
de expressão dialectal entre os dois grupos de ilhas. E
no meio desta polémica, que pode até estar condenada
a uma extinção natural, eis que, com grande surpresa,
recebi, pela primeira vez, há já uns largos meses, um
conto da autoria de José Figueira (Zizim) e escrito em crioulo
de S.Vicente, conto a que se seguiram sucessivamente outros na mesma
expressão dialectal e focando sempre a realidade social da
ilha de S. Vicente. Não vejo o Zizim Figueira desde os tempos da minha adolescência, afastados que ambos nos encontramos do torrão natal já lá vão mais de 40 anos. Eu pelo menos é quanto estou dele afastado, ainda que longe da vista mas não do coração.
Escusado é dizer que a leitura desses contos, a que ele chama
"storias mindlenses", transportam-me à atmosfera
da minha ilha e avivam-me as memórias e as saudades, como certamente
acontecerá a qualquer cabo-verdiano que esteja também
longe. As "storias" do Zizim conseguem recriar com autenticidade retratos singulares do meio mindelense, dando vida ao homem típico e enredando-o, harmoniosa ou conflituosamente, na teia do quotidiano em que ele busca o sustento para si e para os seus, espairece o espírito em "paródias" de grupo ao som das cordas dum violão e em redor duma "bafa" de moreia e grogue, ou simplesmente sobrevive altivamente no labirinto da sua existência.
Ou seja, o Zizim pinta-nos com mestria o quadro social em que o nosso
conterrâneo vive, sonha, ama, diverte-se e dá largas
à sua natureza mais sublime, ora ironizando e driblando a sorte
madrasta, ora ousando rasgar com inconformismo o estreito horizonte
em que se desenrolam os seus dias. Confesso que fui surpreendido pela fidelidade e pela verosimilhança que o autor coloca nas suas narrativas, prova de que nunca se diluíram no seu espírito as imagens do real que teve oportunidade de observar na sua infância e na sua juventude. Mais do que simplesmente observar, soube guardar, com uma atitude de compromisso artístico, as imagens colhidas, para no futuro as trabalhar, recriar literariamente e temperar com saber, imaginação e criatividade.
Arquivados em pasta própria todos os contos do Zizim que eu já recebi, releio-os com frequência, porque recordar é viver, encantado com a "gostusura" deste contributo que o amigo e conterrâneo nos lega para recriarmos o imaginário da nossa ilha natal, deleitando-nos mas também informando-nos sobre um determinado quadro sociológico e histórico.
Daí que eu já tenha avançado, em conversa com
amigos, que estes contos são também uma contribuição
para a sociologia e para a história, neste caso alusivas a
S. Vicente. Vale dizer que se estes contos não tivessem o crioulo como meio expressional, dificilmente seria percepcionada e sentida a mensagem, com todo seu realismo social, singularidade e vibração.
E a propósito, relembro estas palavras do nosso mestre Baltasar Lopes da Silva: " Parece, assim, que em Cabo Verde o emprego ou criação de um crioulo padrão há-de surgir das virtualidades do próprio fenómeno literário nestas ilhas.
Mas onde o génio literário capaz de impor, pelo seu
prestígio, esse padrão?" Estas palavras são
coadjuvadas pelo pensamento já exteriorizado por homens de
letras e profundos conhecedores da realidade cabo-verdiana como o
Dr. Henrique Teixeira de Sousa. Pois é, impor um crioulo padrão à literatura cabo-verdiana é um procedimento insensato e contrário à evolução natural de uma língua, e, convenhamos, condenado provavelmente ao insucesso. Um padrão será obviamente necessário à afirmação do crioulo como língua literária a impor-se em todo o Arquipélago. Mas não pode é ser imposto, terá de se impor por si próprio, lenta e gradualmente, com avanços e porventura recuos e ajustamentos, à custa da iniciativa dos criadores literários. É por esta razão acrescida que aplaudo o Zizim Figueira porque, além de nos deliciar com as suas "storias", está a contribuir, de forma natural e despretensiosa, não só para a dignificação do idioma cabo-verdiano mas também para candidatura de uma das suas versões ao estatuto de crioulo padrão.
|