O PARAÍSO QUE PODERÁ DEIXAR DE SER NOSSO

No passado mês de Setembro resolví ir até à ilha de Boa Vista com o intuito de descansar e desfrutar das belezas dessa ilha, da qual guardava boas recordações de viagens que eu havía feito com meus tios e primos, por duas vezes quando tinha entre 10 e 11 anos. Vinham tios e primos de Portugal, Praia e Mindelo e encontrávamos-nos em "Bubista" e lá ficávamos por duas semanas, acampados no ilhéu.

Tínhamos um bote alugado, muitas vezes comandado pelo tio Antoninho ou entao pelo tio Djibla, que nos traziam diariamente, aos primeiros raios de sol, a vila, para buscar a cachupa da Filó que nos dava força para a nossa aventura, diária, de "explorar"a ilha de cabo a rabo, como um autentico conto de fadas com direito a tesouro enterrado no ilhéu e tudo. A ilha era nossa.

Passados todos esses anos voltei, buscando alguma liberdade naquela ilha que outrora havía sido tão minha, a ponto de carregá-la em minhas memórias até hoje. Desembarquei no porto, já que os voos estavam completamente lotados, pelos turistas que também buscavam a ilha para descansar. Até aí tudo bem, afinal o que é bonito é para ser compartilhado.

Deixei as minhas coisas numa pequena pensao onde acabei por ficar, e saí logo em busca das praias que havíam ficado em minhas memórias. Passei pela vila, onde já se notava alguma mudança, tanto nas infra-estruturas e no tipo de pessoas que ía encontrando. Parei para comprar um gelado numa gelatería onde a dona era italiana.

Fui à praia que continuava linda, praia de Chaves, toda ela ocupada por estrangeiros. Ao longe vía um grande complexo hoteleiro, do qual já me havíam falado, o Venta Hoteles, um dos maiores da África Ocidental, onde as pessoas só entram com autorização dos diretores, e eu jamais me iría submeter a tal humillação em meu própio país. Achei estranho porque um amigo meu, espanhol, me tenha dito que o hotel era lindíssimo e que estava aberto ao público (eles).

Fiquei triste, mas fui-me deixando levar pelas outras belezas da ilha que, de algum modo, íam mascarando os detalhes que ía percebendo, em relação ao turismo que aí se vai desenvolvendo. No último día, resolvi visitar o tão falado Marine Club, onde em nenhum lugar aparece escrito "proibido a nacionais", com a cara de nacional, mas onde em cada olhar pude perceber uma pergunta: "Quém te deixou entrar?"...

Nunca, em toda a minha vida, em outros países, em cidades marcadas pela discriminação social e racial senti tal sensação. Foi simplesmente horrível, até uma senhora aproximar-se de mim e me preguntar se podería ajudar. Eu tinha um nó na garganta, pensei em sacar de dinheiro, alugar um quarto, pensei em convidar o pessoal que estava comigo para jantar, enfim pensei em mostrar-lhes que podía pagar para estar aí e que, eles sim, é que estavam em divida comigo por estarem a enrequecer às custas de um país que é meu e sobre o qual tenho também responsabilidades.

Saí, com uma sensação de ter sido a maior humillação pela qual passei na minha vida, por nao ser loira de olhos verdes, com uma mala Louis Vuitton a tiracolo. E olhem que eu faço parte de um grupo de pessoas com algum poder económico e relativamente bem relacionada. Pensem naqueles nacionais, com cara de coitados, que abundam neste país, que buscam trabalho, e que são obrigados a manter as suas gentes longe do local onde trabalham para poderem, no fim do mês ter o que comer.

Me pergunto quem é o responsável por isso?. A quem nos dirigimos a reclamar dass humilhações pelas quais a nossa gente está a pasar?. Que beneficios a nossa gente está a ter em funçao dos investimentos externos que temos estado a receber?. De que tipo de emprego falam quando se diz que os investimentos externos geram empregos directos e indirectos?.

Quantos nacionais existem nessas empresas em cargos de chefía?. Com que rigor e frequência essas empresas são controladas?. Quem faz esse controle?. Minha gente, 250 metros quadrados do nosso chão, na Boa Vista, valem 5.000.000$00, o mesmo valor de um lote de 1.600 metros quadrados aqui na Praia na Cidade Velha, uma zona cara.

Os nacionais irão vender tudo o que têm aos estrangeiros e irão morar no interior da ilha, formando pequenos "jardins zoológicos" pelos quais os turistas poderão passar, de carro, e ver como vivem os nativos. Descobrí que a terra já não é mais minha e que o pior está a caminho afinal, são vários os empreendimentos nos quais não vamos poder entrar por sermos nacionais!.

Margarida Salomão Mascarenhas

 

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