PRAIA MENINA DO ATLÃNTICO
O que
nos faz regressar a estas ilhas violentamente áridas vistas do ar?
Esta pergunta continuará sempre, mesmo depois de aterrar no Aeroporto da Praia, que dois anos atrás prometiam estaria pronta para receber aviões maiores. Não está!
A resposta a esta pergunta continuará sempre ao longo da minha visita e agora de regresso a Portugal continua a incomodar-me.
Respondo: todos procuramos a "Ilha Fantástica" da nossa infância. Essa ilha quase que só existe dentro de nós. Porque sempre existiu foi dentro de nós.
A Praia que eu deixei já não existe, ou antes o "Plateau" como fantasma do passado ainda existe.
Notícia dominante na rádio e nos jornais: O Procurador da República, mulher e filha foram baleados á porta de sua casa! Cartazes do Presidente da Câmara convida-nos a amar esta "Praia menina do Atlântico".
Na Av. de Lisboa bem alcatroada e amparada pelas ravinas por onde escoa o lixo, deixo de sentir o empedrado esburacado da maior parte das ruas.
Vou ao lançamento do livro "Vidas Paralelas" do Mário Lúcio. Leio o livro de uma assentada e gostei. Mas a temática Cabo-verdeana está lá, embora com outros trajes.
Na mesa
da apresentação está o Filinto Elísio, que promete
nas inteções do novo ano escrever um livro, mas "que (berrarei
gritarei) nunca será claridoso".
Discute-se o tema "Identidade" no ISE. Sou reconhecida "como
a menina do Seló" e reconheço alguns dos participantes
do lado dos professores: Brito Semedo, Ondina, João Lopes, Ondina Ferreira,
Elisa..
A questão linguística é, como não podia deixar de ser, o tema mais polémico: Brito Semedo sente-se chocado por nos corredores da Instituição se ouvir os alunos falando crioulo com os professores.
Como
Presidente dos Palop, tem de defender o crioulo paralelamente com o bom português,
que se fala cada vez pior e o criolo que já ninguem lê e por
onde passa a antiga clivagem dos kapistas.
Um aluno
diz que se sente insultado e ofendido quando falam com ele português..
Elisa
choca-se com o termo "CRIOULO" que internacionalmete tem conotações
negativas. Sugere
O seu percurso que não passa pelo português, mas francês,
e reivindica a negritude da maioria da população.(Em oposição
ao "tropicalismo e mulatismo).
Vou ao casamento da Irana, toda de branco como manda a tradição,
danço e divirto-me como não fazia há muito e partilho
os "copos de cocacola com whisky", caipirinhas, com que todos abaixo
dos 18 convivem lindamente e dão lições. Como a vida
só começa depois da Meia Noite os jovens deixam o casamento
e seguem para esses templos de diversão onde não me atrevi a
entrar.
Deixo a "Menina do Atlântico" que de menina nada tem e que
é capaz de me dar lições de vida e "futuro".
Menina de Alterne que ninguém já é capaz de segurar.
A construção civil prospera os "palacetes" e "castelos"
na nova Cidade de Palmarejo e arredores
.
Na aridez dos campos continuam cabras e vacas dando lições de
sobrevivência alimentando-se de sacos de cimento vazios.
Um belo banho em S.Francisco. Quase deserta não fossem as 4 crianças de pás e baldes, subrepticiamente roubando o contorno da costa. Despejam a areia junto á estrada onde uma camioneta aguarda.
Segue-se "S. Vicente, com San Silvestre".
Sao Vicente
O avião aproxima-se de S. Pedro e descortino o Monte Cara, lindo em qualquer parte do mundo. 25 de Dezembro. Viajo com músicos que devem vir passar o S. Silvestre. Pela primeira vez ouço uma morna no avião.
Na
Menina do Atlântico a rádio
só dava aquela batida de manhã á noite, e que nada tinha
a ver com as minhas memórias. Uma estrangeira, gosta e pergunta o nome
da música e os músicos respondem em inglês que é
o Luís Morais tocando o "Recordai": "He died last year",
diz o músico querendo partilhar uma saudade
- What? Oh yes! - where can I buy the record?
Mindelo impressiona-me bem, depois da confusão da TAL MENINA. Natal, ruas desertas, acácias verdes ladeando a estrada. O mar da galé e o seu azul de anil. Ruas alcatroadas e limpas. Caixotes de lixo cheios de vestígios da noite anterior, mas sem vento, tudo nos lugares.


O Tio Djó dá-me uma volta de jeep e vejo que Mindelo alargou-se.
Subimos ao Fortinho e assisto a um inesquecível Por do Sol sobre o
Monte Cara e no alto a Lua cheia. As ruas continuam desertas a Praça
Nova também mas atribuo tudo ao Natal e o dia seguinte ser Domingo.


Domingo seguimos para a Baía das Gatas tencionando lá almoçar
mas tivemos de regressar devido ao vento e a não haver uma alma viva.
Deslumbro-me com os recortes dos montes desta Ilha. Vejo que choveu, porque
pelo caminho há hortinhas de milho e feijão.

Vamos almoçar no "Foya Branca", empreendimento turístico de nível internacional mas de preços incomportáveis para o mindelense médio.
De volta vejo, na Praça Nova, um movimento idêntico ao dos anos 50, música no coreto, povo a passear e bancos cheios. Só a picardia do Onésimo que retirou o pic-nic e brindou os mindelenses com um vasto Urinol!: "piss-nice"
Na segunda-feira faço o que, tenho a certeza , todos nós que estivemos 17 anos fora fazemos: passeio em peregrinação rua a rua á procura da minha adolescência. Nenhuma das casas onde vivi com os meus Pais existe hoje.
Nem Pontinha nem Fazenda. Mas curiosamente todas as casas dos meus avós estão iguais, algumas fechadas e caindo de podres como a casa onde nasci na Rua da Luz .
Revisitei
a rua onde estive deportada em 62 pelo Governador e onde o Zizim Figueira
passava todos os dias.
A avenida marginal está linda mas o cais acostável destruiu muito da vista e das minhas memórias.
Entrei
na Igreja onde fui baptizada e tentei reviver o casamento da Any (a que não
assisti).
Saí e deparei com , já não "Aquele bonc de sone" do Figueira, mas pior, muito pior, com a morte de pessoas vivas na mais deprimente miséria humana.
A Casa
Benfica é hoje um armazém chinês.
A Casa do pai do Ruizinho Machado foi demolida e dizem que será do
Djibla.
A Câmara continua igual mas não vejo cicerones repartindo o gonhe
na pracinha.
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Fotografías Zizim
Café Lisboa: UM BARZINHO da Rua de Lisboa onde me dizem ser o fulcral ponto de encontro e de facto onde vejo algumas pessoa conhecidas. E é tudo. Café Portugal, sim, mas Café Royal nicles.
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Vou conhecer a artificial e "famosa" Praia da Lajinha . De manhã nem encontro 4 gatos pingados. Então Germano Almeida??? Espantaste a caça???
Tiraram-nos a Matiota e deram-nos a Lajinha, mas o tubo de
escape dos carros e autocarros fazem-me sufocar.
Praça
de Estrela, sem estrela mas com coreto.
Cheirei o pêxe no plurin de pêxe e no Mercado Municipal espremi
as arrudas e outras ervinhas esconjurando os espíritos.
Foi então
que senti a grande diferença entre Praia e S. Vicente. Devem ter notado
a diferença entre esta prosa e a da PRAIA. Ésta é puramente
descritiva.
Procurei a alma daquela Ilha e encontrei-a enterrada na nossa cabeça
.
Recuei ao anos 50 e:
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VI AQUELE ÚNICO Liceu em todo aquele arquipélago onde éramos cerca de 400(?).
VI UM PORTO A MORRER, ENTUPIDO DE ARMAZÉNS DE INGLESES QUE NÃO NOS DEIXAVAM RESPIRAR, VI O PÓ DE CARVÃO NOS PULMÕES E "AQUELE BARCO GREG" PLANTADO NOS DESEJOS DE TODOS NÓS.
VI O CANAL GELODE ONDE OS TUBERCULOSOS CUSPIAM NA PROSA DE ORLANDA AMARILIS
E REGRESSANDO:
VI GENTE
SIMPÁTICA, ACOLHEDORA E REPENTISTA MAS MAIS "zappings" nos
seus contactos .Vi morabeza, pó di terra e perguntei a todos :
Que é do espírito empresarial e actividades culturais desta
cidade.? Responderam-me a mim que sou pardal, e não capotona, que devia
sair depois da meia noite
:
E por incrível que pareça todos, mas todos acusando a "Praia"
de todo o mal do inverno do meu desapontamento.
TAL QUAL NOS ANOS 50!
Margarida
Salomão Mascarenhas
Janeiro 2005