AS ILHAS DE CABO VERDE A JUVENTUDE E O CONSENSO POLÍTICO E INTELECTUAL

O homem cabo-verdiano, durante o período colonial foi utilizado como elemento colonizador pelos portugueses. Atingiu, dada esta ingrata situação e a nossa posição estratégica, uma certa craveira intelectual que até após a independência se fez sentir.

Neste contexto e no âmbito da historia literária do nosso País não podemos deixar de relembrar que foi o Movimento Claridoso (1936) quem melhor traduziu essa dimensão do cabo-verdiano, confirmada mais tarde pelos que lhe seguiram.

Sem negligenciar os movimentos precedentes e ainda no âmbito da história da nossa literatura lembramos um número considerável de poetas e prosadores que deram corpo à história e à literatura cabo-verdiana tais como: Baltazar Lopes da Silva (Osvaldo Alcântara), Aurélio Gonçalves (Nho Roque), Jorge Barbosa, B.Leza, Gabriel Mariano e tantos outros que oportunamente mencionaremos.

Alguns destes vultos notáveis do nosso Cabo Verde a quem as gerações devem tanto, são fruto do Seminàrio-Liceu em S. Nicolau (1866), dirigido pela Igreja e subsidiado pelo Estado e ainda do Liceu Nacional Infante D. Henrique, mais tarde Gil Eanes, fundado em 1917.

A importância destas instituições, que não só serviram para a formação dos nossos intelectuais, bem como na disseminação do ensino pelas ilhas, deve ser sempre recordada como baluarte de cabo-verdianidade e de outras instituições de ensino como o Seminàrio de Santiago, criado em 1957, e o Externato do Aeroporto do Sal, fundado nos anos 60.

Voltando à exortação dos nossos vultos literários, lembramos Pedro Cardoso, um dos grandes mestres do crioulo, fundador do jornal Manduco, em 1923/1924; Eugénio Tavares (1836/1930), criador de várias mornas onde o autor se exprime, a maior parte das vezes, em crioulo; Félix Monteiro, nosso valoroso etnólogo e homem de letras; Henrique Teixeira de Sousa e suas diversas obras literárias.


Também é de exortar, para não se esquecer, tantos outros músicos e poetas espontâneos que até a data de hoje estão aguardando a oportunidade de ser relembrados e devidamente homenageados.

Em 1968, Onésimo Silveira publicou o seu contraditório libelo anti-evasionista, Consciencialização na Literatura Cabo-Verdiana. Onésimo, neste ensaio de carácter panfletário e baseando-se na "querelle entre les anciens et des modernes" serviu-se, atacando os claridosos dizendo que estes eram detentores de uma cultura europeia e europeizante mas que, atrás deles, havia uma geração anti-Pasárgada, ou seja anti ideia de evasão contida no poema "Vou-me embora para Pasárgada", do brasileiro Manuel Bandeira - a geração de "Gritarei, Berrarei, Matarei, não irei para Pasàrgada", que alude ao poema de Ovidio Martins, estimado poeta militante; que inclui o próprio poeta Ovídio Martins, Felisberto Vieira Lopes (Kaoberdeano Dambara), Arménio Vieira Silva, Abílio Duarte, Francisco Fragoso (Kordakaoberdi) e tantos outros.

Manuel Lopes, acusando o toque, replicou dizendo que os claridosos sempre deram luta no terreno sem terem a necessidade de se evadir. O que é pura verdade! Na realidade, nunca houve uma réplica formal e elucidativa sobre esta querela.

Presentemente, há uma nova geração pos-independência que não podemos negligenciar, tais como: Germano Almeida, Arsénio Firmino de Pina, Manuel Veiga, Benoni e tantos outros que precisam ser projectados, a prosseguir na mesma caminhada da afirmação da caboverdianidade.

A finalidade deste preâmbulo vem precisamente no sentido de motivar a nossa juventude que, nestes últimos trinta anos, está completamente desabusada, a pegar em "armas" de afirmação cultural e intelectual de Cabo Verde.

A triste e grande impressão que todos temos de uma maneira geral é que a nossa sociedade cabo-verdiana vem sofrendo do síndroma do individualismo, motivado pela ganância do TER, negligenciando outros valores que não sendo materiais enaltecem o cabo-verdiano. Felizmente que até ainda hoje não houve ninguém que tenha levado o seu cofre com ele para a cova.

Ponhamos de parte todos estes aspectos negativos de nossa existência, mesmo que pareça utópico aos olhos daqueles que têm a barriga maior que os próprios olhos e tentemos entrar numa nova era em que o Altruismo e o Humanismo se situem acima de tudo isto, pondo em prevalência a espécie Humana! Haja boa vontade da parte de todos nós.

Após a Independência, esperei ver um Cabo Verde unido e liberto dos preconceitos Bairristas e Regionalistas, criados e bem aproveitados pelo ex-colono (dividir para melhor governar).

Esse trabalho de descongestionamento deverá ser feito pelo Governo, através de matéria informativa educacional, tais como escolas, rádio, jornais, televisão, colóquios, etc etc.) mas pelos vistos, até hoje nada foi feito neste sentido.

Guardemos sempre esperança em cabo-verdianos como eu (modéstia à parte) e tantos outros que vimos obrando no bom sentido de melhorar tudo isso. Temos que ter confiança na nossa juventude para que ela possa continuar a passar a mensagem, pois da nossa parte ela foi muito mal passada por razões de ordem política e outras na altura, dada a situação.

Há que apoiá-la, certo, mas ela também, uma vez apoiada, tem que se esforçar para atingir os seus objectivos, cultivando o SÉRIO em todas as suas acções.

Nós somos uma geração que está envelhecendo, por isso vamos ficando preocupados não só com o desinteresse dos nossos jovens mas também com a necessidade de uma tomada de consciência desta situação pelos nossos governantes.

Em matéria de informação Cabo Verde, nos tempos coloniais, esteve sempre bem posicionado em relação às outras colónias portuguesas, sobretudo S. Vicente, onde a presença inglesa foi importante durante quase um século, por causa dos entrepostos de carvão de Newcastle, conhecido na terra por Carvon Nho Càss, e de Cardiff para abastecer todos os barcos que, em grande número, na época, utilizavam esta forma de energia com destino às Américas e outras partes do mundo.

Deste facto resultou que estávamos sempre bem informados, pois recebiamos jornais, livros, discos tanto da Europa como das Américas e ouvia-se quase ininterruptamente a rádio B.B.C, de Londres, versão portuguesa, captada por nós, emissão destinada ao Brasil.

A Ilha do Sal, dada a sua posição estratégica e condições excepcionais com o Aeroporto Internacional (criado pelos italianos nos anos trinta) teve papel similar. Em termos de circulação de matéria informativa, nem Portugal conheceu tal apogeu.

De qualquer forma, o cabo-verdiano, voluntária ou involuntáriamente, tirou bom proveito desta situação privilegiada, pois na época S. Vicente era o Centro Estudantil de todo o Arquipélago e no regresso dos estudantes à sua ilha natal, no fim de cada ano lectivo, levavam com eles sempre algo de novo e positivo.

Hoje, apesar do avanço das tecnologias de comunicação e informação (internet) e tendo em conta o carácter impessoal deste sistema, facilitando ainda mais o contacto humano, a informação que será sempre uma necessidade primária para o povo se enaltecer e se instruir, não parece circular como seria de esperar.

Enfrentemos juntos a realidade dos factos. O nosso nivel intelectual deve ser tratado com grande interesse pois a necessidade de fazer progredir o País a isso nos obriga.

Criemos brigadas de alfabetização, organizemos colóquios, conferências, ponhamos o SABER à disposição dos nossos compatriotas, chamemos e motivemos os nossos jovens, pois eles são o futuro ou seja a continuidade.

Por favor não nos venham dizer que tudo está sendo feito. Abandonemos a nossa mitomania e debrucemo-nos seriamente sobre o problema pois o momento é de reflexão.

Se quisermos, os cabo-verdianos na diáspora podem dar uma importante participação neste processo. Certos de que nunca houve uma política de imigração da parte dos nossos governantes, da independência aos nossos dias, e sabendo-se de antemão a diversidade de quadros competentes existentes na diáspora, estamos convictos que ainda vamos a tempo de os envolver.

Cabo Verde tem quatrocentas a quinhentas mil almas e o equivalente, senão mais, no estrangeiro. Já lá vão em breve trinta anos que somos independentes.

É certo que somos uma jovem nação, mas isto não nos impede uma introspecção a fim de tocarmos nos pontos nevrálgicos dos nossos problemas e procura dar-lhe soluções credíveis.

Sabemos também que governar um país pobre como Cabo Verde não é fácil, mas apesar da nossa pobreza há outros valores e outras riquezas que necessitam ser exploradas, tendo em conta o valor ou a capacidade do indivíduo, dentro do contexto progressista do termo. Torna-se necessário deixar de brigar entre nós e começarmos a caminhar na mesma perspectiva.

Para concluir: seria útil que houvesse entre os nossos Ministérios e os quadros na diáspora uma boa correlação. Pois já há alguns anos que esta organização existe e até hoje a corrente parece não passar. Não negligenciemos esta coesão de trabalho em comum que só seria profícuo ao povo das nossas Ilhas.

Temos quadros no estrangeiro dotados de excelentes formações e experiências praticamente em todos os sectores vitais do desenvolvimento e que quereriam participar no progresso do nosso País.

Estabeleçam-se contactos e apoiemos os nossos ministros neste sentido, a fim de que, quando de intervenções no estrangeiro, possam preparar os seus trabalhos conjuntamente e com o aviso dos ditos quadros que, estando no terreno, podem dar uma particular contribuição na defesa dos interesses de Cabo Verde.

Cabo Verde e o seu povo so terá a ganhar, pois sobre o ponto de vista linguístico e da experiência profissional, os quadros na diáspora poderão ser muito úteis, sobretudo se abandonarmos as nossas arrogâncias ancestrais e com toda humildade aprendermos a unir os esforços de todos para o bem de Cabo Verde.

Usando a poética expressão crioula do meu compatriota e amigo Doutor Francisco Fragoso: TRABAJA BO STUDA KAOBERDI PA DIANTE.


Zizim Figuera (José Figueira, júnior)

V O L T A R