Em
memória do navio Ildut e do seu sagaz capitão João
Pedro Martins e de todos os antigos marinheiros das águas cabo-verdianas
NA ROTA DO DESTINO
- Santa Luzia, vós que estais hoje oculta na bruma,
vós que no céu sabeis que nunca é vã
coisa alguma,
rogai por este navio da nossa inteira e fiel devoção,
assim como vos dedicamos o amor que vai no seu porão!
Prece
de capitão é assim mesmo com força de mar bravo,
proferida com a fé de marinheiro que vive sem agravo,
em convés perfumado de breu, cordame e maresia,
varrido às vezes por ondas que não têm cortesia.
Velas
enfunadas vão agora na soltura do vento em desatino,
estai e bujarrona, irmãs desfraldadas no mesmo destino,
em mar que balança desaforado em ritmo extremo,
com espuma oscilante a marcar o compasso supremo.
S.
Nicolau é destino para lá dum mar que não está
chão,
mas capitão não precisa de instrumentos de navegação,
ele menino-moço-homem feito nestas rotas de cabotagem:
-Ah, tanta saudade dos tempos caloiros de aprendizagem,
tempos de sonhar com horizontes longes e dilatados,
de tanto sangue na guelra e tantos namoros salteados,
tempos de viagens constantes àquelas águas do Paul,
de noites perdidas a ver a lua cheia a pratear o mar azul
e a iluminar o perfil de garça do nostálgico navio;
Oh, longe vai a vida solta de moço de coração
vadio!...
-
Toninhas, para onde ides hoje apressadas, criaturas,
vós que pareceis sempre incansáveis de aventuras?
Capitão é despertado com esta ralação
de marinheiro
quando os animais passam velozes desafiando o veleiro.
Mais logo nuvens negras se acastelam em jeito traiçoeiro
e vagas se agigantam ameaçadoras além a bombordo.
-
Capitão, ouvi um presságio antes de entrar a bordo!
Exclama alguém entre o gemido sofrido das enxárcias
presas com a mestria precavida para as circunstâncias.
- Qual história, qual carapuça, marinheiro de água
doce,
onde já se viu ânimo de gente de mar que assim desfalece?!
Estamos abençoados por S. Vicente, Santa Luzia e S. Nicolau,
e desconfiar de santo é coisa de grogue a pedir sova de pau!
Nunca se saberá se houve mau agoiro ou simples premonição
ou se apenas a má cara do tempo inspirou simples intuição;
a verdade é que uma vaga alterosa baldeia o convés
inteiro
de um modo em que o mar nem sempre é useiro e vezeiro,
e o marinheiro volta a falar no presságio ouvido em terra.
- Fechar escotilha e segurar leme que tempo está de guerra,
brada alto capitão no meio do rugido do mar e do vento,
mas mar e vento mostram aos santos a feição do seu
portento,
e a água já tudo inunda com a força líquida
do seu contágio.
- Adé capitão, juro que ouvi mesmo um mau presságio...
Irado, capitão grita seu impropério aos quatro ventos:
- Ó gente receosa, este navio foi abençoado por três
santos!
Contudo o lobo do mar olha já de soslaio para os cantos,
como querendo esconjurar uma maligna fatalidade
já vidrada nos olhos cansados e rendidos à verdade.
Ordena ainda mais um bombeamento ao porão do navio,
com a água já a roçar a orla das vidas presas
por um fio.
E o veleiro começa a afundar-se no mar do tormento,
Mas ainda à espera de socorro náutico a todo o momento,
quando alguém jura ouvir a voz celestial de Santa Luzia,
como algo que entra fundo no espírito e não é
pura fantasia,
voz que parecia emergir do oceano para tudo acalmar,
a rogar ao Todo Poderoso pela sorte dos filhos do mar.
Hora de esperança renascida na fé finalmente devolvida?
Mas capitão já vê seu navio com olhos de despedida,
e quer também mergulhar no abismo sua alma sofrida:
- Ó perda irreparável, deixem-me ir no último
amplexo!
Mas vozes amigas lembram-lhe que ainda há mais nexo
em seu amor à terra chã e nas promessas de vida por
viver,
e há um instante em que tudo se reconcilia no fundo do seu
ser.
Abstrai-se completamente da procela e do corrupio a bordo,
e chegam-lhe ecos de longe trazidos pelo vento a estibordo,
qual canto mavioso de sereia embalando seu espírito,
levando-o de regresso a imagens e sentimentos do pretérito,
um mundo de afectos que procela não pode destroçar,
mais fiel e mais duradouro que o navio prestes a soçobrar.
- Adé capitão, gostamos do senhor como nosso pai de
verdade...
É confissão de corações próximos
numa hora de fatalidade.
- Abandonar o navio! Ordena vibrante e já recomposto o capitão,
olhos postos além no socorro náutico, presença
visível da salvação,
afinal, prova provada que Santa Luzia foi mesmo ouvida
por Aquele que controla mar e vento e o poder sobre a vida.
Capitão sabe como são sempre efémeras todas
as glórias,
mas sabe que o seu navio navegará sempre nas suas memórias,
sagradas memórias como a fé que alumia a sua paixão,
doces memórias como a bondade que irradia do seu coração.
Nota:
Esta composição não é a reprodução
fiel de qualquer acontecimento da realidade. Contudo, no seu fundo
temático, e com o adorno ficcionista apropriado à
circunstância, há o aproveitamento do episódio
real do naufrágio do navio Ildut e da atitude dramática
do seu valoroso capitão.
Tomar,
1 de Abril de 2003
Adriano Miranda Lima
V
O L T A R
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