SONATAS AO VENTO

(cinco sonetos sobre o vento, a música e a solidão)


I

O sopro do vento nas folhas da minha tamarindeira
Parece vozes de ignotas paragens chamando;
Em acordes de música se transmuda, quando, sonhando,
À sombra da árvore sinto pairar uma fada cantadeira.

Se acaso, na teia do sonho, se agita meu coração,
A música é logo o fluído mágico que enlaça
Os fragmentos soltos da emoção. Tudo por graça
Duma fada que da arte da música tem o condão.

Tamarindeira!, se da tua sombra tenho o usufruto,
Que importa a acidez do teu exótico fruto
Se recebo ainda o bálsamo da música do vento!

Sombra de árvore, voz do vento, coração ardente:
- Mistura enfeitiçada para um devaneio de alma errante,
Quando a música tem a urgência dum fermento.

 

II

Sopravas, vento, mas agora não te ouço...
Deixaste-me só e em desamparo de mim?
Leva-me contigo até ao longe sem fim!...
A qualquer ilha, mesmo que fique em calabouço,

Por não levar comigo bilhete de viagem.
Asseguro-te que não traio tua bondade,
Pois não tenho substância nem idade,
Sou, como tu, simples aragem,

Emanação do longo e desolado suspiro
Das gentes que ficam em terra,
Porque seu sonho emperra,

Vento, não peço, apenas sugiro...
Leva-me para longe que eu te conto o segredo
Do meu triste e arrastado degredo.

 

III

Vem, espuma branca do mar, virtuosa dançarina,
Deixa a garupa da onda e vem afagar meu rosto,
E dar-me o beijo salgado tão do meu gosto,
Elixir milagreiro da minha alma peregrina.

Traz as partituras das sereias da tua beira,
Para juntos cantarmos o mais belo hino do mar,
Em memória dos marinheiros que não tiveram altar
No oceânico sepulcro da sua hora derradeira.

Cessa teu eterno namoro com a onda,
Pega na mais bela grinalda de alga
E diz a Poséidon que é tua hora de folga.

Espero por ti para procurarmos a sonda
Dos abismos em que se perderam minhas ilusões,
Para da minha alma quebrar todos os grilhões.

 


IV

O vento interrompeu de repente sua serenata.
Agora só se ouve o gemido surdo do trapiche,
Sob o olhar circular do boi de cor azeviche,
Na cadência repousada da sua dura passeata.

O rapaz comove-se com o olhar meigo do animal
E inicia uma longa, suave e triste melodia,
Porque sabe que isso é um bálsamo para a agonia
Duma criatura de Deus que não sabe fazer mal.

O suco da cana vai jorrando na selha,
E as horas escorrem com pastosa monotonia,
Apenas quebrada pela toada lenta da melodia.

Quadro que desafia o tempo - herança velha,
Esta em que o trapiche ainda resiste e perdura,
Evocando o pacto entre o homem e o bicho criatura.

 

V


Cavername é o que resta de ti, no rochedo a apodrecer,
Navio de outra era, nostálgico veleiro.
Há quanto tempo já as ondas te não embalam inteiro?
Em sonhos ainda te vejo a todo o pano, ao entardecer...

Mas tu também sonhas às vezes, eu sei...
Se o vento sopra de feição, não resistes ao incitamento
Das ondas, das toninhas e das estrelas do firmamento,
E retomas as rotas centenárias do mar da velha grei.

Ainda vives imanente nas pupilas dos meninos da beira-mar,
Herdeiros da genética memória das lides marinheiras,
Agora teus tripulantes no cavername das suas brincadeiras.

E continuas vivo nas histórias do povo insular,
Meu falucho, modesto barquinho de carga e passageiro.
Só eu sei quanto desejas voltar a um estaleiro...

Tomar, 15 de Março de 2002
Adriano Miranda Lima

V o l t a r