(À mulher cabo-verdiana, em preito de homenagem à sua tenacidade,
estóica resistência e capacidade de sacrifício nas longas e dolorosas
secas que ciclicamente assolam o arquipélago atlântico. Ao descer a
um baixo patamar de sobrevivência, nunca perdeu a singularidade
humana que caracteriza a gente cabo-verdiana; pelo contrário, parece
que é nessas alturas que a solidariedade humana entre os mais
deserdados da fortuna adquire maior sublimidade. Lição de humanidade
a rondar a transcendência espiritual que é certamente o sonho longínquo
da espécie humana.)

 

SOBREVIVÊNCIA


Caminha uma mulher na paisagem
Perdida entre a fraga e a poalha do céu
Um fardo de lenha leva à cabeça
Mostruário das suas parcas ilusões
Em vida desarvorada de sonhos
Na terra estiolada e sofrida

Magra é ela como a lenha que leva
Mas seu corpo ilude as leis biológicas
Porque conhece os rastos milenares
Daqueles que se eximiram à iníqua sentença
Riscando da mente a memória do pão
Na terra estiolada e sofrida

De seu peito o ânimo não se despegou
Nem quando os grãos recusaram germinar
Nem com a despedida do último orvalho
Porque aprendeu a alquimia da acácia
Irmã do mesmo destino
Na terra estiolada e sofrida

À sua volta é a litania dos corvos
Qual estrondosa e rendida ovação
À heroína da trágica e estrénua cena
Em que todas as emoções se petrificam
Ao som do requiem da natureza
Na terra estiolada e sofrida


Caminha uma mulher na paisagem
Serpenteando caminhos impossíveis
Carregando pouco mais que nada
Em seus ouvidos a toada do vento
É como a voz de Deus sussurrando
Na terra estiolada e sofrida



Tomar, Dezembro de 2001

Adriano Miranda Lima

V o l t a r