REVISITANDO FONTE CÓNEGO

Mais um poema de Adriano Miranda Lima, nascido da sua revisitação a "se ter crida". "Revisitando Fonte Cónego", conta-nos AML, "diz respeito à zona do mesmo nome, onde vivi a minha adolescência, e que, revisitada, se me deparou com poucos vestígios daquilo que a minha memória guardara durante a ausência.

Sobretudo, sem o espaço de terra batida, próximo da casa dos Morais e dos Vitória, onde jogávamos com as nossas bolas de trapo".

(À memória da infância vivida em Fonte Cónego)


REVISITANDO FONTE CÓNEGO

Presa na memória, a bola de trapos
Vai e vem, com simulacros de pêndulo,
Em movimento errático e mofino,
Na esteira das balizas que se perderam
Com a geometria progressiva das ruas.
Ressalta na parede da velha esquina,
De cal nostalgicamente poluída,
Onde ficaram para sempre estampadas
As travessuras dos meninos de outrora.
Mas já sem o afago da antiga poeira chã,
A bola desvia-se e, sem cerimónias,
Saltita para as casas da vizinhança,
Acordando recordações adormecidas,
Emolduradas nas paredes domésticas
Com o afecto destilado toda a vida.
Surpreende olhos atrás das persianas,
Pasmados com o rosto enigmático deste dia,
Que hoje parece mascarado de fantasia,
Fazendo lembrar sonhos que o tempo deliu.
Surge o sol inclemente do meio-dia,
A hora dilecta do temido minguarda,
E calaram-se as vendedeiras de rua
E os cães irrequietos presos nos quintais.
E a bola de trapos seguiu o seu destino,
Costurada com farrapos de ilusão.


Adriano Miranda Lima

V o l t a r