Veio esta noite de mansinho
Em tons violeta e carmim,
Antes do veludo pardo e definitivo
Em crescendo sobre a baía
Em breve tornar-se o reflexo sobranceiro
E esbatido
Do coração do dia.
Vejo
além uma estrela solitária
Descaída sobre o Ilhéu dos Pássaros,
Abrindo a aparição do espaço sideral.
Brilha que brilha eu vejo que sim,
Brilhando timidamente
Sobre a dormência dos sentidos,
Farol incréu das viagens sonhadas.
E
o Monte Cara já dorme seu sono
Olhos perdidos na imensidão celestial.
Sonha que sonha eu sei que sim,
Sonhando talvez
Com as luzes e sombras
Que de repente se tragaram
Na voragem do ciclo.
É
mais uma noite de sono iludido
E despertas cogitações
Em espasmos concêntricos nas águas presas
No amoroso amplexo
Em que a terra se rasgou
Na violência incontrita
Da paixão original.
Medusas vão e vêm boiando ao acaso,
Despojadas de sua tonalidade diurna,
Órfãs da luz que morreu.
Plácidas criaturas de singela originalidade
Em complexa sintonia
Com o impulso secreto
Da água e da vida.
Da maresia chegam reminiscências
De breu e estopa,
De cordame e enxárcias e baças lanternas
De navios que partiram do ancoradouro
Da adolescência
E ainda não voltaram ao fundeadouro
Da ausência.
Não se ouve voz de gente no meio da baía
Chamando,
Nem latido de cão em convés
Alertando,
Ou sirene de embarcação
Anunciando.
- Ah, tanto silêncio... tanta nostalgia nas águas da utopia!
Só o iate fundeado na íris do porto
Resiste à sedução
Do vazio do escuro e do silêncio.
Na sua coreografia de água,
Baila que baila eu vejo que sim,
Bailando suavemente
Ao ritmo da ocasião instante e conforme.
Adriano Miranda Lima
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