Poesia de Adriano Miranda Lima


REGRESSO À PRAÇA ESTRELA


De Adriano Miranda Lima chega-nos poesia: Liberal, no espaço que vem dedicando à Cultura, está aberto à divulgação do labor dos nossos poetas. É aqui um ponto de honra, que vamos cumprindo consoante o possível. Este poema de AML tem estória: depois de ausência do torrão natal (39 anos de ausência), o regresso e a revisitação aos lugares de infância.

Como o autor nos escreve: "a Praça Estrela, por mim encontrada completamente modificada na sua traça e com uma serventia algo diferente daquela que outrora se lhe destinara. Antigamente, era uma praça na verdadeira acepção do termo, um espaço de recreação pública muito exótico no seu traçado, sugestivo com os seus canteiros e no empedrado em forma de estrela, e envolvente com as suas acácias e palmeiras.

Embora vindo mais tarde a ser um pouco desprezada. Hoje é um espaço mais utilitário, com os seus diversos locais de venda a sugerir mais a fisionomia de uma feira. Deste modo, o meu sentimento ao revisitar os locais de infância enleou-se num verdadeiro paradoxo. Por um lado, a grata surpresa pelos efeitos do progresso, por outro, a desilusão pelo apagamento das pegadas da infância"

 

                  REGRESSO À PRAÇA ESTRELA


No regresso, quis devolver-te a pedra em forma de estrela,
que, ausente, guardei ciosamente na arca do tempo,
mas recusaste-a porque teu mosaico desfeito não ia resistir
à emoção do reencaixe físico da matéria original,
perdida a fulguração do possível e a premonição do futuro.


Afinal, eu e tu envergamos hoje a mesma máscara subtil,
mas sem a visão iluminada pela liquidez do sonho,
porque esta languidez duma monotonia repetida
desengana a inocência que anseia o imprevisível
e persegue a interminável e renovada descoberta.


O mesmo vento que me aligeirava o passo e adejava o espírito
levou para longe os velhos adereços que eram tua ilusão
de palco receptivo de todas as comédias do povo.
E assim se foi tua cabeleira de acácias, palmeiras e coqueiros,
o adorno natural da tua vaidade, presente da terra mãe.


Dela irradiava um feitiço que já não tem remissão,
tal como a paixão desencantada não se regenera
nem com a força que se inventa no mais ardente poema.


Eras a amplificação do som do violão, do marulhar do mar,
do bater do pilão, do rumor dos botequins,
enfim, a mistura indulgente do lume duma estrela
com os sonhos que nascem e morrem todos os dias.


Como decifrar agora os sinais vitais do teu signo
se nem o cheiro inconfundível da maresia já se sobrepõe
às fragrâncias baratas que o teu corpo hoje exala,
se nem a sombra da noite já é cúmplice dos bancos primordiais
onde os amantes se entregavam a desenfreadas paixões!?


Perdida a veemência da fusão com o tempo e a emoção,
resta-te a ficção de cada um dos teus novos tabernáculos,
onde se vendem ilusões à medida de cada olhar.


Teu círculo de vida alarga-se mas sem a identidade original,
refaz-se mas despojado do centro vital que era a razão de tudo
e onde ressoavam os ecos nostálgicos da terralonge,
mediando a distância entre a realidade e o sonho.
Ah, mas fascina-me ainda o teu rosto de luz e pedra!


Adriano Miranda Lima

V O L T A R