RUMORES DA PRAIA DOS BOTES

Praia Sensual


A espuma do mar é a mão
Que vem ao teu encontro
E se insinua até mais não
Na tua cálida mansidão.
Tange com doçura maculada
Tua corda mais sensível
E amas como se o tempo não fosse
E vitalícia tua fortuna se mantivesse.

Homens estirados ao sol
Sentem teu sinal chamativo
E aguardam no teu seio amoroso
As últimas dádivas possíveis,
Mesmo sabendo já exaurida
A rocega dos teus fundos
E cada vez menos pródigas
As marés enchentes de promessas.

Reconfortam-se saboreando
O langor da pose expectante
E o recalcado apelo dos sentidos,
Que o sonho não empenha suas virtudes.
Longe esvaem-se os rumores da baía,
E é quando demanda as águas mansas
Uma barca de estranho pavilhão.
De onde vem? Para onde vai?
Não interessa, basta o encantamento...

 

Repouso dos botes


Os botes são os restos postergados
Da faina tumultuosa de outros tempos.
Sobram, avulsos, ensimesmados,
Na vasta enseada materna
Onde encalharam os sonhos.


Uns, insepultos, não desesperam
De uma anunciada ressurreição.
Outros, mais desatinados contra o destino,
Aguardam o som do apito longínquo,
Já refeitos do eco enganoso do mar,
Para rumarem ao costado da fortuna.
- O lume que alimenta seu sonho
Crepita entre os destroços queimados
Da resignação da última espera.

 

Violão enfeitiçado

Onde morava o Ship Chandler
Agora é o silêncio e o caruncho
Que saldam as contas derradeiras.
Mas quando a noite vai alta
O povo ouve música de violão
A tanger no sobrado abandonado,
Música que adormece os sentidos
E estonteia quem passa na rua.

Cava ainda mais fundo
O medo de quem a ouve
Quando o som da música
Se verte em toada fina e baixinha.

Estranha melodia que mais parece
Reflexo musicado
Duma súplica,
Dum lamento,
Dum gemido!

Será canto de saudade
De quem ao longe suspira?
Trova sentida
De quem do amor se desespera?
Ou morna de despedida
De quem na ausência se antevê?

Só um violão enfeitiçado
Ousa derramar tanta dor,
Tanto lamento…

 


Amor anónimo


A palavra que te foi confessada
Baila no teu coração de moça
Como a nota mais viva e sublime
Do repertório musical da tua graça.

És agora princesa por uma noite,
Noite de devaneio que queres guardar
No cofre secreto das tuas ilusões,
Castelo arvorado onde só tu ordenas.
Vais na Travessa da Praia
Ao encontro da ostentosa magia
- Da areia,
- Do mar,
- Das estrelas;
Acreditas que o amor do teu coração
Mora naquela infinita imensidão
Em que te queres perder, dissolver!...

 


Memória


Não sei em que ocaso se perdeu
O burburinho das mulheres que vendiam
Seu peixe no pelourinho do povo.
Ninguém foi atrás do eco fugidio
Dos queixumes que o mar engoliu.
Mas alguém espreitou por entre a bruma
Em que amanhecem novos vendilhões
E recolheu piedosamente os xailes,
Os lenços e as rodilhas das "mães-de-filhos"
Que esgotaram todo o suor e todas as lágrimas
Quando o horizonte fugiu aos seus olhos.

Adriano Miranda Lima

V o l t a r