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OFICIALIZAÇÃO
DO CRIOULO Em texto
publicado no último número deste jornal, tive ocasião
de expressar a minha opinião sobre esta temática. Não
dispondo à data de nenhuma informação concreta
sobre as intenções em vista, limitei-me a uma abordagem
das consequências de uma provável subalternização
da actual língua oficial. Entretanto,
tive oportunidade de ler o livro "A Construção
do Bilinguismo", da autoria do Dr. Manuel Veiga, passando assim
a conhecer o essencial do seu pensamento sobre uma proposta viabilizadora
do projecto. No seu trabalho ensaístico, aliás rico
de conceitos e com elevado nível de exposição,
o autor mostra uma visão rasgada e decidida sobre o caminho
a seguir, servida pelo seu múnus académico e profissional
em Linguística e literatura. Contudo, espera-se que haja pluralidade
na discussão desta questão tão séria como
implicativa com o futuro de Cabo Verde. Confesso que a leitura do trabalho em apreço não faz regredir ou flectir as minhas considerações anteriores. Retomo o tema, mantendo a minha análise ainda centrada mais nas prováveis consequências futuras do projecto do que na discussão conceptual. Antes de mais, ressalve-se que não está em causa qualquer medida tendente a prestigiar o nosso Crioulo. Julgo inatacável esse propósito, por ser do senso comum que ao Crioulo devem ser dadas condições para o seu progresso evolutivo, de modo a tornar-se, num tempo futuro, uma língua capaz de mais altos voos na literatura e na comunicação formal. O Dr. Manuel Veiga propõe um plano para a consecução desse objectivo, mas nele não deixo de ver o risco provável de uma alienação futura da língua portuguesa ou do apagamento da sua importância no panorama linguístico cabo-verdiano. Aliás,
não é uma leitura subliminar que nos diz que o português
passará à condição de "língua
segunda, co-oficial e regional". São as próprias
palavras do autor que o estipulam. Assim,
se a promoção do Crioulo for um sucesso em todos os
domínios da sua funcionalidade como instrumento de comunicação,
há razão fundada para presumir que não sobrará
espaço para o português, por um natural processo glotofágico
que se inicia, susceptível entre línguas com substância
matricial comum. Na verdade, o Crioulo é um dialecto românico.
A afirmação sobre a desejada complementaridade entre as duas línguas, sustentada por Manuel Veiga com um belo enunciado de intenções, perde, no entanto, eficácia perante a dinâmica subjacente ao projecto dedicado ao Crioulo, em contraponto com a indefinição do verdadeiro espaço que competirá ao português no ensino. É um facto que noutro passo da obra se diz: "Para o português, a primeira etapa (da construção do bilinguismo) será a implementação do rigor do seu ensino com a metodologia de língua segunda e a introdução do rigor na sua aprendizagem". Mas, há aqui, indisfarçável, um laivo de incoerência. Com efeito, se a carga horária passa a ser repartida, restando saber em que proporção, é inevitável que o português não mais disporá das condições inerentes ao ensino de primeira língua que antes detinha. E assim, é lícito interrogar como é que uma língua desde sempre aprendida logo no primeiro ano da escolaridade e veículo de todo o ensino posterior até aos mais elevados graus, passará, como língua segunda, a ter apenas no rigor acrescido a solução para a aquisição de mais elevados índices de aprendizagem. Isto parece simples panaceia para lograr um milagre. Mais, se
enquanto primeira língua do ensino não consegue conquistar
espaço preferencial no quotidiano informal dos cabo-verdianos,
como pode prever-se que, depois de despromovida, vai conseguir esse
desiderato e manter-se ainda como instrumento eficaz para outras funções
nobres, como língua para o exterior? Claro que todas estas dúvidas só se colocam na antevisão dum cenário de sucesso absoluto das medidas propugnadas a respeito do Crioulo. De que tenho dúvidas. O que mais se receia é que venha a criar-se uma situação ainda mais ingrata do que a de diglossia. Ou seja,
não se consegue um verdadeiro triunfo com a promoção
do Crioulo e entretanto comprometem-se os alicerces das estruturas
seculares que sustentavam o ensino do português. Seria uma autêntica
regressão no tempo, que nos deixaria porventura numa situação
de inferioridade em relação aos nossos irmãos
dos PALOP. Em suma,
não altero os meus pontos de vista quanto ao prejuízo
que a língua portuguesa poderá sofrer no quadro proposto
para a construção do bilinguismo. Entretanto,
seja qual for o projecto a aprovar, atente-se na seguinte realidade: - A CPLP
(cerca de 240 milhões de almas) é tão vasta como
diversificada na sua natureza antropocultural. Nenhum dos seus membros
parece interessado em alterar a sua língua oficial ou condicionar
o seu estatuto. Pelo contrário, Em Angola e em Moçambique
há sinais de uma aposta na língua portuguesa, havendo
dados oficiais que indicam ter a sua expansão crescido em Moçambique
de 10 para 40% desde a independência; - Informação
oriunda do "Departamento para os Assuntos do Ensino da língua
Portuguesa nos EUA" refere que há 3 milhões de
descendentes de portugueses, brasileiros e cabo-verdianos a frequentar
o ensino da língua portuguesa naquele país, essencialmente
das 2ª e 3ª gerações; e que os descendentes
de portugueses e cabo-verdianos constituem 80% daquele efectivo; - Recente
concurso de língua portuguesa promovido em Portugal pelo Jornal
Expresso teve a participação de um número relativamente
elevado de participantes cabo-verdianos, talvez o maior entre os PALOP,
facto muito realçado e comentado na imprensa local; - Fala-se em negociações em curso para que Cabo Verde venha a usufruir de um estatuto especial junto da União Europeia. Portugal tem irrecusavelmente deveres morais históricos para com Cabo Verde. O uso de
uma língua de Estado comum é uma condição
basilar para a unidade de discursos circunstanciais e de estratégias
visando objectivos de interesse recíproco ou proveitos indirectos
para Cabo Verde; - É
previsível que Angola e Moçambique, sobretudo o primeiro
país, venham, no futuro, a tornar-se países de especial
interesse para o incremento de relações de intercâmbio
e cooperação com Cabo Verde, e bem assim prováveis
destinos para o escoamento de quadros especializados cabo-verdianos; - A preferência
dos nossos estudantes por estabelecimentos de ensino superior portugueses
é um facto assente. Portugal é também destino
privilegiado da nossa emigração, ou o mais a jeito,
onde existe uma importante comunidade; - Desde
há alguns anos, canais televisivos portugueses e brasileiros
levam às populações cabo-verdianas densos pacotes
de informação noticiosa e inúmeras telenovelas
de emissão diária produzidas naqueles países
de língua portuguesa. Ainda é cedo para estudar e contabilizar
o impacte deste fenómeno no contexto linguístico local,
sendo de crer que não será inócua a sua influência
na linguagem corrente. A língua
comum é, pois, a razão para uma escolha e uma preferência,
uma vantagem inalienável, o elemento aglutinador para a união
que gera a força. Toda esta realidade recomendará prudência face a esta afirmação do Dr. Manuel Veiga: "Com o Crioulo é que Cabo Verde marca a sua diferença no mundo". Isto é muito discutível, pois a afirmação parece não julgar suficiente a imagem intrínseca do povo. O Crioulo é o único selo da sua fidelidade? Não
senhor, o povo cabo-verdiano pode ostentar ao mundo outras imagens
de marca da sua identidade, porventura mais gratificantes, como a
sua imagem de povo pobre mas rico de sentimentos; de povo maltratado
pelo destino mas esperançado no futuro; de povo prisioneiro
da insularidade mas aberto à universalidade; enfim, de povo
pacífico, convivente e comprometido com o humanismo. O mundo actual é globalizante em função de variáveis que infelizmente os países pequenos ou de pouco peso económico não controlam. Mas a ideia de que a afirmação da identidade é um contrapeso da globalização pode simplesmente subentender um sentimento de auto-compensação psicológica. Com efeito,
a identidade de um povo pode hoje reforçar-se mais pelo seu
contributo civilizacional nos espaços comunitários em
que intervém do que pela exteriorização de símbolos
de suposta afirmação identitária. No caso de
Cabo Verde, o dispor uma língua compartilhada por cerca de
240 milhões de almas é um trunfo que se sobrepõe
a outras cartas do baralho. Nada me move contra a promoção do Crioulo, nem podia mover, convenhamos. Ele é a minha língua materna, aquela que aprendi ainda no berço. Contudo, diga-se o que se disser, na idade escolar a língua portuguesa entra no quotidiano infantil sem grandes sobressaltos ou traumas psicológicos. No meu caso pessoal, e certamente no de outros alunos no passado, iniciei o ensino primário com uma professora portuguesa, que não tinha o Crioulo como coadjuvante do seu magistério. Como foi isso possível? Em minha opinião, a resposta é esta. Se o português foi língua mãe nos primórdios da formação do nosso Crioulo, com o andar dos tempos as duas línguas se tornaram uma espécie de irmãs, embora uma delas mais distante. Mas bastou isso para que o cabo-verdiano retivesse o essencial do português no seu espírito. Mesmo as crianças e os adultos analfabetos que não o falam correctamente percebem-no de forma intuitiva. Alguém disse que a linguagem é a revelação da sombra do pensamento. Acrescentaria
que o Crioulo se revela instantaneamente e em primeiro lugar, enquanto
o português jaz ali, oculto nessa sombra, imiscuindo-se na intelecção
da linguagem e dando sinais vitais da sua existência. Não há muito tempo, vi na RTP África uma reportagem sobre a alfabetização de adultos na ilha de Santiago e comoveu-me a imagem de pessoas idosas visivelmente felizes por aprenderem a ler e a escrever o português. Este apontamento humano desmente por si só a afirmação de que é preciso descolonizar mentalidades para abrir espaço para a imposição do Crioulo, como já li algures. Não,
o povo cabo-verdiano já exorcizou todos os fantasmas opressores
do passado. Fê-lo com a sua liberdade interior e com a sua superioridade
moral. Sem complexos e sem ressentimentos. Com isso, a língua
portuguesa também se libertou de marcas odiosas, se é
que uma língua alguma vez as pode ostentar. Acredito que o Crioulo merece ser objecto de estudo e de investigação em órgãos institucionais competentes. E de ser apoiado em todo o seu percurso evolutivo com vista a permitir leituras adequadas e oportunas sobre o seu verdadeiro futuro no contexto linguístico cabo-verdiano. Mas não creio que deva ser com prejuízo do português. Pelo contrário, este deve ser objecto de uma atenção renovada, de modo a embeber-se no húmus nacional, para eventualmente dele colher a sabura de certas palavras e expressões do nosso Crioulo. Não
se veja aqui qualquer sentimento apologético em relação
ao português e em detrimento da língua materna. Mas penso
que há momentos da História em que a visão pragmática
deve ser a mandatária das nossas acções. Não queiramos andar mais depressa do que a História. Deixemos assentar a poeira para melhor enxergarmos o caminho do futuro. Por enquanto, o português é o melhor bordão da nossa jornada. Tomar, 10 de Fevereiro de 2005 Adriano Miranda Lima |