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OFICIALIZAÇÃO DO CRIOULO UM IMPERATIVO NACIONAL? Notícias
que me foram chegando sucessivamente de várias fontes particulares,
e recentemente confirmadas pelo actual Ministro da Cultura de Cabo
Verde em entrevista à RTP África, dão-me conta
de que o Governo tenciona decretar a oficialização do
Crioulo. Ao mesmo tempo, tenho recebido alguma informação
sobre o aparente pouco entusiasmo que esta medida estará a
despertar na população do País. Tenho de
confessar que ainda não conheço os pressupostos do projecto
nem a metodologia que os seus autores tencionam utilizar para viabilizar
um empreendimento desta envergadura. O pouco que sei resulta das breves
considerações que ouvi ao Ministro durante a entrevista.
Mas ouso pensar que as linhas essenciais do seu pensamento deverão
de algum modo enquadrar-se no quanto foi já debatido no passado
sobre a temática do bilinguismo cabo-verdiano e as virtualidades
do nosso dialecto. Deste modo,
os pontos de vista que aqui afloro e as interrogações
que ao mesmo tempo levanto poderão estar desfocados do objecto
concreto da discussão, já que por mim desconhecidos
todos os seus dados. É como dar tiros dentro dum quarto escuro
contra um intruso. Penso que
a oficialização do Crioulo deverá passar numa
primeira fase pela concretização das seguintes medidas:
decisão sobre o crioulo que servirá de idioma padrão,
face aos diferentes falares nos dois grupos de ilhas; feitura do instrumento
gramatical e outros que irão domesticar o uso do idioma; acções
dinamizadoras da nova língua oficial, visando em particular
a sua utilização literária e a massificação
do seu uso corrente e conforme a norma instituída. Simultaneamente
ou não, o Governo irá naturalmente ponderar as seguintes
decisões a meu ver críticas: fazer ou não do
Crioulo a língua principal do ensino; tornar ou não
o Crioulo a língua do Estado. O Crioulo
é uma criação original dos cabo-verdianos, cuja
origem, evolução e consolidação têm
a história que todos nós conhecemos. Não se pode
ignorar o seu enraizamento na cultura cabo-verdiana nem a autenticidade
com que ele se entretece na alma cabo-verdiana. É uma realidade
indesmentível. Até
aqui, tem coabitado com o Português sem quaisquer incompatibilidades
ou atritos de relacionamento, embora se reconheça forçosamente
que o Crioulo interfere com a aprendizagem do Português de padrão
mais ortodoxo, dada a promíscua vizinhança semântica
e vocabular entre os dois idiomas, cabendo no entanto interrogar se
isso representa de facto um verdadeiro agravo. Contudo,
o crioulo viveu sempre numa espécie de rebeldia como instrumento
idiomático, enriquecendo-se continuamente e moldando a sua
feição à mundivivência de cada ilha ou
grupo de ilha. Se a antropocultura das diferentes populações
das ilhas tem o seu fermento em cada uma das variantes dialectais,
antevejo como realização muito espinhosa, se não
mesmo de duvidoso êxito, a imposição do crioulo
de Sotavento ao grupo de Barlavento. Não há muito tempo,
estando eu no aeroporto de Lisboa, ouvi a um cabo-verdiano de S. Vicente,
pessoa de meia-idade e de cultura mediana, a seguinte expressão:
"un uvi dzê quês crê obrigá nôs
ta falá cima badio. Môce, mim nem morto". Mas dando
isso de barato, vejamos agora a possibilidade de construir dum momento
para outro uma ferramenta gramatical para o novo idioma oficial. É
óbvio que será um passo indispensável a ser dado
num espaço de tempo tão curto quanto o visado para o
timing de imposição da nova língua oficial. Será
possível conseguir esse desiderato? Sabe-se que toda a língua
percorre um longo trajecto e passa por diferentes filtros de depuração
até poder configurar-se em instrumento de escrita viável
e eficaz, ou seja, literário. A língua portuguesa fez
um trajecto de depuração de cerca de 3 séculos
ou mais, e quanto ao Francês bem sabemos que foi muitíssimo
mais longa a sua via-sacra. Quase 1 milénio. Estou curioso
de saber como vai o nosso Crioulo tornar-se dum momento para outro
numa língua literária pronta a utilizar. A consegui-lo,
será uma realização única na história
cultural da humanidade. Por enquanto, o cabo-verdiano tem ao seu dispor uma língua literária que lhe foi dada por imposição, sim, mas que passou a ser seu património cultural de direito próprio por conviver com ela desde há 5 séculos, língua que desde sempre constituíu o veículo transmissor do seu pensamento mais elevado e complexo. Dir-se-á que foi duma fecundação telúrica que nasceu o bebé Crioulo, que a breve trecho se tornou um menino escorreito, traquinas e "trivido", mas que se mantém ainda muito trôpego no andar e no falar. Anda bem dentro de casa, mas porta fora ainda não tem maturidade para se desenvencilhar no meio do trânsito complicado da via pública. Soletra
as palavras mas ainda gagueja muito para ler um livro a sério.
Lê aquela poesia lírica e satírica de sabor popular
mas engasga-se muito com poemas mais densos de ideias e conceitos,
e muito mais ainda com a prosa escrita. Passe o devaneio metafórico
e continuemos
Em relação
ao instrumento gramatical, pergunta-se se o seu corpo vai aproveitar
o esboço de orgânica gramatical baseado no Português
que o Crioulo herdou de forma natural. Por algum rumor que me chegou,
parece haver intenção de divergir pelo menos no domínio
da grafia, substituindo-se a letra correspondente à sonoridade
do Q por K, assim como outros mais casos, tudo no sentido de evitar
semelhança com o Português. Mas não disponho de
informação concreta sobre o assunto. Em paralelo
com este problema, surge a questão do ensino da nova língua.
Decerto que esta vai entrar nos programas de ensino, restando saber
se em simultâneo e com a mesma carga horária do Português,
ou se objecto de um tratamento privilegiado, de modo a acelerar a
sua aprendizagem e a tornar rápida a assimilação
e a difusão do Crioulo oficial. Provavelmente será esta
última opção. Advinham-se problemas de contorno difícil na aprendizagem simultânea das duas línguas, já que não deve ser pensável a abolição do Português num horizonte temporal próximo. Assim sendo, a similitude semântica e lexical entre as duas línguas, não obstante as divergências, gerará dificuldades na aprendizagem, como é fácil de prever. Afinal, uma das línguas é mãe natural da outra, e, perante a indisfarçável semelhança de traços fisionómicos, natural é que a par e passo haja dificuldades na identificação dos rostos, no decorrer não só da aprendizagem como da própria utilização futura de ambas as línguas. É evidente que o problema não se coloca com a mesma acuidade nas gerações actuais, já que elas aprenderam uma única língua oficial, utilizando-a, com frequência e ocasião variáveis, nos contactos formais e nas interacções quotidianas. A menos que os entendidos queiram conceber um instrumento gramatical inovador que rompa em absoluto com as linhas estruturais da norma do Português. Mas é
precisamente neste domínio de questões que não
disponho de informação, razão por que será
extemporâneo formular agora juízos definitivos. Resta saber,
repito, qual o lugar que o Crioulo irá ocupar no programa de
instrução oficial. Importa também esperar para
saber se irá disputar com o Português o lugar de primazia
como língua do ensino, destronando-o. O que pode equacionar-se
não necessariamente nos tempos mais próximos, mas num
futuro não muito distante, em função de sinergias
culturais que possam surgir, de forma espontânea ou pela via
administrativa, no sentido de consolidar a consciência da identidade
nacional tendo o Crioulo como sua bandeira heráldica. Se assim
for, estará aberto o caminho para o Crioulo ser adoptado como
a língua oficial do Estado Cabo-Verdiano, sendo que, nessa
altura, a língua portuguesa começará a extinguir-se
lenta mas inexoravelmente na terra cabo-verdiana. Será
uma morte natural, com sentença ratificada em cada geração.
É claro que poderá manter-se latente nos espíritos,
mas sem a força anímica de outrora. Como se
pode ver, toda esta problemática exige a maior ponderação
dos responsáveis em virtude do acervo de implicações
que dela vai emergir com consequências que poderão ser
prejudiciais para a realidade prática do País. Desde logo,
a produção literária em Crioulo ficaria irremediavelmente
circunscrita ao reduzido público cabo-verdiano, desligada que
ficava do quadro de conexão com a CPLP. Pode contrapor-se a
este argumento a afirmação de que o escritor cabo-verdiano
terá sempre o recurso à língua portuguesa para
comunicar com o vasto público da CPLP. Mas se assim é, que motivação terá o escritor para escrever em Crioulo se de antemão sabe que o público a quem se dirige é manifestamente escasso para a projecção da sua obra? É claro que um Germano de Almeida e outros da actual geração preferirão certamente não desligar-se do Português. O problema
é com as gerações seguintes. É evidente
que não está em causa a poesia lírica ou satírica,
género em que o Crioulo nunca teve problemas para se impor,
se bem que limitado ao mundo cabo-verdiano. O dramático para a futura produção estética é ela deixar de contar com um vasto público que a consuma e a discuta gerando um feed back de novos estímulos e motivos para a criatividade literária. Então o mais certo será a obra ficar retida no espaço mental dos seus criadores, o que é dramático. Definhando
a literatura cabo-verdiana, a promoção do Crioulo se
tornará num presente envenenado para a elite criadora, fazendo
ruir os alicerces que sustentaram a sua mudança de estatuto.
Por outro lado, fica desde logo inviabilizada uma via de eleição
para o aperfeiçoamento definitivo da nova língua oficial,
sabendo-se como se sabe que os homens de letras, os escritores, é
que têm a ferramenta para esse árduo trabalho. Estaremos
assim perante um autêntico paradoxo. Infelizmente,
o espaço que me é disponível não permite
aflorar outras mais implicações, estas de uma natureza
mais vasta e porventura de efeitos mais contundentes. Será
objecto de uma próxima colaboração. Se o problema
pode ser analisado numa óptica apenas linguística e
cultural, visando a clarificação e o fortalecimento
da identidade nacional, também é lícito contrapor
que os problemas dos povos requerem hoje uma visão estratégica
alargada e apontada para o horizonte em que se ergue este nosso mundo
cada vez mais global. Tanto em Angola como em Moçambique, a língua portuguesa tem sido objecto de uma atenção especial com vista ao seu enraizamento e difusão, cientes da importância desse vector no espaço da CPLP. Em Dezembro do ano passado, decorreu na Fundação Gulbenkian uma conferência sobre o tema "A Língua Portuguesa - Presente e Futuro". Nessa conferência, a professora Perpétua Gonçalves, da Universidade Eduardo Mondlane de Maputo, teve ocasião de falar sobre o incremento do ensino do Português em Moçambique, país em que, segundo ela, o conhecimento do Português pela população aumentou de 10 para 40% desde a independência. Dissertou
sobre as "variantes africanas do Português" (VAP)
que muito provavelmente vão emergir naquele País, em
Angola e outros PALOP, embora ainda numa fase incipiente, o que impossibilita
aos estudiosos qualquer extrapolação com bases científicas. Admito,
pois, que nos PALOP possa surgir, com o tempo, um Português
com aquisições e cambiantes semânticas próprias,
mas isso não é pecado, bem pelo contrário, na
medida em que constitui um factor de enriquecimento da língua
comum. Basta observar o imenso Brasil e a forma como dimensionou a
língua portuguesa, sem dela se desviar. Não tenhamos dúvida. Os PALOP irão exercer um contributo idêntico, notável sob o ponto de vista linguístico e cultural, juntando-se a Portugal e ao Brasil para a projecção da língua portuguesa no mundo e assim criando e consolidando um espaço comum de influência estratégica que não deixará de trazer dividendos a cada um dos parceiros. Penso que
toda a medida susceptível de postergar o ensino do Português
em Cabo Verde, ou de o subalternizar de forma indirecta, concorrerá
para o seu enfraquecimento e talvez para a sua futura extinção.
Irá
Cabo Verde arranjar lenha para queimar o seu cartão de sócio
da CPLP? Cabo Verde é piquinim em tamanho, mas esperemos que
seja suficientemente grande para escolher o caminho certo. Respeito
o voluntarismo e o impulso idealístico dos autores do projecto
da oficialização do crioulo. Ao colocar algumas dúvidas
e interrogações sobre a sua oportunidade e viabilidade,
não quero com isso apoucar a competência nem desvalorizar
o esforço dos que querem meter ombros a uma tarefa desta dimensão
e jaez. Mas haja consciência de que as dificuldades que vão
rodear a viabilização do projecto serão de peso
proporcional ao arrojo da ideia. Numa visão pessoal e generalista, sem ser um especialista na matéria, entendi deixar aqui a minha voz, convicto de que todas as vozes não serão demais para alertar os responsáveis para a delicadeza e importância duma decisão desta natureza. Tomar, 20 de Janeiro de 2005 Adriano Miranda Lima |