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MULTICULTURALISMO - REALIDADE OU FICÇÃO?
Parecem-me índias sul-americanas puras, talvez bolivianas, pela forma peculiar de arrumar o cabelo em longa trança e pela cor e desenho típicos das grandes e pesadas camisolas de lã que envergam. Comem uma refeição de tipo fast-food, a criança entretida com um gelado italiano. É muito provável que vivam em permanência em Portugal e explorem o comércio de artesanato do país de origem, como se vê em algumas lojas e feiras por aí.
O certo é que as supostas bolivianas me parecem completamente
identificadas com o "modus vivendi" local, só exteriormente
diferenciando-se da enchente humana que a esta hora cai em peso na
zona das refeições. Momentos
antes, duas moças de bela cor de chocolate passaram por mim
bem apertadinhas nas suas jeans surradas, ostentando um olhar atrevido
e deslocando-se em jeito de gazela. Macacos me mordam se não
eram cabo-verdianas, ou luso-cabo-verdianas, talvez da segunda geração
de emigrantes. Já
é um lugar comum ver brasileiros e brasileiras atrás
dos balcões deste e doutros estabelecimentos comerciais. Ou
mulheres do Leste da Europa compenetradas na limpeza de mesas e recolha
de pratos neste sítio e noutros similares, enquanto os maridos
labutam lá fora na construção civil, umas e outros
em misteres incompatíveis com o seu nível cultural e
habilitações profissionais, mas que lançam mão
de qualquer recurso para angariar um pecúlio altamente valorizado
nos seus países de origem pela relação cambial
entre o euro e as moedas respectivas. Os chineses, esses, estão já em toda a parte com as suas lojas de utilidades várias, ambientando-se com uma facilidade surpreendente. Os filhos são logo matriculados nas escolas portuguesas, e num ápice assimilam a língua de Camões. A minha filha tem alunos chineses na sua classe de biologia do ensino secundário e considera-os os mais aplicados e proficientes.
Ultrapassam com uma facilidade impressionante a dificuldade da língua
e é um regalo vê-los conviver com os colegas portugueses
sem o constrangimento da barreira cultural. Claro que poderia citar
outros mais exemplos de etnias e culturas diferentes que se misturam
no turbilhão social desta e doutras metrópoles por este
mundo fora. Cresce cada vez mais a mobilidade e a interacção de povos de culturas diferentes, em grande parte por causa dum desequilíbrio planetário que parece refractário às mais sábias e avisadas teorizações sobre o progresso humano como um todo mais justo e integrado. Ideal a que aspiram os espíritos mais lúcidos e iluminados, mas que parece inatingível quando se colocam sobre a mesa os interesses vitais que norteiam as economias das nações poderosas. No recente Fórum Económico Mundial de Davos, foram debatidos, mais uma vez, os grandes problemas sociais que afligem a humanidade e originam os conflitos reais e potenciais que ameaçam a estabilidade e a paz. É um lugar comum debater estes problemas. Mas sobram a retórica e as boas intenções onde falta o pragmatismo de soluções ousadas e consequentes. Um dos temas mais abordados em Davos neste ano foi a problemática da ascensão da China e da Índia à condição de novas superpotências económicas mundiais. Preocupa os seus parceiros o saber se o crescimento dessas nações gigantes será um fenómeno sustentado em todas as suas variáveis implicantes ou se não esconde perigos sociais, ambientais e económicos para todo o planeta. O mesmo é perguntar se duas nações superpovoadas e em acelerado desenvolvimento serão parceiros responsáveis da globalização ou se virão a agravar as distorções e os desequilíbrios que em parte são origem do infortúnio das populações dos continentes subdesenvolvidos. Pergunta deveras pertinente. Mas quem ousa um prognóstico? Todavia, atrevo-me a perguntar se não será de esperar soluções à altura de duas nações de sabedoria milenar. Basta comparar o pragmatismo com que a China transitou da economia planificada para a economia de mercado enquanto a URSS sucumbiu clamorosamente em idêntico cenário.
Uma tinha sob o seu edifício civilizacional o poderoso alicerce
de uma cultura antiquíssima e outra apenas se regeu por uma
cartilha de ideais que os novos ventos da história esfrangalharam. Mas, à revelia das grandes questões que se debatem nos grandes fóruns, estamos num tempo em que são claros os indícios da intensificação das migrações e das interacções étnicas, convergindo para a heterogeneidade das sociedades humanas. As relações interculturais aos poucos ganham forma no interior dos países e aprofundam-se à escala planetária com o incremento das novas tecnologias de comunicação. Os recentes acontecimentos negativos dos arredores de Paris e outros podem não ser significantes. Os movimentos em prol dos direitos humanos são transnacionais e estão a pôr em causa os conceitos tradicionais de relativismo cultural, o que é um sinal claro da dinâmica imparável que pode instalar-se e fomentar a coexistência étnico-cultural. Ao
mesmo tempo, emergem novos paradigmas de investigação
no âmbito da antropologia, abandonando conceitos que entendem
a cultura como algo fechado em si próprio, imune a padrões
de influência transversal. Não sei se é utopia considerar que a dinâmica natural do multiculturalismo poderá ser o verdadeiro impulsionador da realização dos objectivos da globalização na sua feição mais humana. A aproximação natural e espontânea entre os povos será menos obra do pensamento racional do que da capacidade intuitiva para olhar para a essência dos fenómenos. Penso que a natureza humana, apesar de todas as nossas decepções diárias, tem respostas surpreendentes que os cientistas sociais nem sempre equacionam. As barreiras da raça, da religião e da cultura não passam de artifícios concebidos para a superação do medo do desconhecido e da insegurança perante as nossas fragilidades humanas. Um episódio real que eu de seguida conto ilustra um pouco este meu pensamento, demonstrando que há momentos decisivos em que o ser humano se transcende e age sob o impulso natural de valores inatos, contrariando em absoluto preconceitos criados pelas sociedades e de certa maneira racionalizados. Algures em Angola, inícios da década de 1960, em pleno mato. Um incêndio devora uma cubata e dentro dela uma criança, a mãe aos gritos no exterior. Um soldado (açoriano) meu subordinado, rude de maneiras e com pouca instrução escolar, assiste ao drama. De repente, lança-se como um relâmpago para o interior da cubata e regressa instantes depois com a criança nos braços, ambos com queimaduras de alguma gravidade.
Ninguém o encarregara da missão, agiu apenas obedecendo
a um imperativo desencadeado no mais fundo do seu ser, indiferente
ao risco da própria vida. Era uma criança negra, que
no preconceito rácico dominante e provavelmente existente no
espírito do militar, sobretudo naquele tempo, seria um ser
inferior às crianças brancas, mas o soldado açoriano
só soube que houve uma ordem dentro de si próprio, emanada
de um desígnio oculto. Para lá da sordidez de todos
os preconceitos. Enquanto
me lembrar desta cena, acreditarei que é irrecusável
o caminho para o multiculturalismo e para a aproximação
natural entre os povos diferentes. Todos os povos em coexistência
pacífica, cruzando-se em todas as latitudes e compartilhando
as suas diferenças, seja ao nível da música,
das artes plásticas e da dança como do vestuário
e da culinária. Mergulhado nestas conjecturas, o meu pensamento ora vogou ao sabor da razão, ora se deixou embalar pelo enternecimento. Nesse ínterim, deixei passar a hora do almoço e o estômago já reclama. Mas estou indeciso entre um cozido à portuguesa, um tshulent israelita, uma moqueca brasileira ou uma tortilha espanhola.
Adriano Miranda Lima |