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CAMPANHA PARA AS PRESIDENCIAIS - UMA ATITUDE CONDENÁVEL
É bom saber que a democracia é já uma sólida realidade nos nossos grãozinhos de terra semeados no Atlântico. É confortante intuir que o nosso pequeno e pobre país tem sido um exemplo de civilidade, tolerância e concórdia para a África e outras partes do mundo.
O nosso povo é dum modo geral pacífico e morigerado
nas suas atitudes, refractário por natureza a conflitos violentos
e à desordem social extremada. Nem o seu longo passado de agruras
e sofrimento estigmatizou a sua conduta na transição
para a liberdade ou lhe diminuiu a rápida intelecção
dos valores cívicos e humanitários que são apanágio
das nações evoluídas. É certo que numa campanha eleitoral ocorrem sempre incidentes, algumas vezes reprováveis, como o recente apedrejamento da comitiva de um dos candidatos presidenciais à sua passagem por um lugar do concelho de Porto Novo. Acreditamos que o incidente tenha sido meramente casual, pois, dum modo geral, é mansa e pacata a nossa maneira de nos relacionarmos uns com os outros, preferindo quase sempre o humor e a graça trivial à discussão violenta e exacerbada.
No ainda curto historial dos nossos processos eleitorais, é
natural que se tenham registado pontuais excessos de linguagem ou
incidentes esporádicos e de pouca monta. Contudo, nada que
se considere fora dos limites aceitáveis. Se repararmos, mesmo
nas mais antigas e sólidas democracias, como os EUA e o Reino
Unido, estas situações costumam emergir no calor das
campanhas eleitorais, sem que ponham em causa os alicerces firmes
da democracia. Na
próxima eleição, o que está em causa é
a escolha do mais alto magistrado da nação, motivo acrescido
para idealizarmos a maior elevação na conduta daqueles
que terçam as armas políticas no fragor da campanha,
sejam as pessoas dos candidatos, sejam os seus apoiantes ou os que
arregimentam as hostes partidárias. Numa
eleição democrática, as regras de jogo são
definidas com limpidez e clareza, conforme a ética global de
princípios a que deve obedecer o escrutínio da vontade
popular. Neste contexto, devemos sentir-nos grandes pela magnitude
da responsabilidade de escolher em consciência o mais alto representante
da nação. Mas também humildes pela consciência
assumida de que a nossa escolha individual não tem o selo da
infalibilidade Cada
candidato tem direito a expor o seu pensamento e os seus projectos,
mesmo quando o enunciado de intenções nos pareça
pecar por excesso ou ferir-se de inverosimilhança. Mas a liberdade
com que os candidatos e seus apoiantes esgrimem os seus argumentos
é precisamente a mesma que nos assiste a caucioná-los
com o nosso voto ou a rejeitá-los por outra opção
de escolha. Nesta campanha pode já ter havido alguma retórica fora de tom. Há sempre tendência para esgravatar no passado para nele desenterrar factos que permitam evidenciar contradição entre o que se diz ou se promete hoje e o que se disse ou se fez antes. Mas, por maior que seja a integridade de carácter ou a lisura das intenções de quem anda na política, é natural que ao longo dum percurso ninguém fique imune a erros, omissões ou contradições.
A política não é um terreno fácil de lavrar,
é um campo extenso e de árduo labor, onde a aprendizagem
contínua deve ser o sustento diário do ideal de servir
a comunidade. Merecem o nosso aplauso os que dão a cara publicamente
para concorrer aos altos cargos da governação política.
Eu, pelo menos, os considero credores do nosso apreço, mesmo
que episodicamente cometam erros. Só não se molha quem
não anda à chuva. Existe liberdade para exprimirmos livremente a nossa proposta e para emitirmos nossa opinião nas tribunas e nas urnas. Todos o argumento serve, toda a palavra cabe no discurso das ideias, desde que em concordância com as regras do civismo e do respeito mútuo. Mas na liberdade da expressão já não há lugar nunca para a atitude inqualificável que foi recentemente publicitada em alguma imprensa cabo-verdiana e difundida pela Internet. Refiro-me
ao insulto de teor racista que foi dirigido gratuitamente ao candidato
Carlos Veiga, atitude tão sórdida e tão reles
que não merece sequer que reproduza aqui as suas palavras textuais.
O repúdio a este acto hediondo deve eclodir ruidosamente no
íntimo de todos os nossos compatriotas. Aliás, estou certo de que os próprios partidários da candidatura adversária devem sentir-se incomodados com tal despautério. Sim, porque é raro ou inédito na nossa terra o insulto racista, mormente nas presentes circunstâncias, e ainda mais, qual macaco de imitação, reeditando a triste fraseologia nazi.
Só um alienado poderia esperar favorecer dividendos eleitorais
com tais processos. O resultado pode ser até o inverso. Ambos
os candidatos serão julgados nas urnas apenas por aquilo que
são: cidadãos dignos e exemplares. e políticos
com obra que honra Cabo Verde.
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