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Caela, uma brava e indómita mulher do povo Caela é uma figura quase omnipresente nos contos (stórias) do Zizim Figueira. Mesmo quando não é figura central do conto, ela vive nos seus arrabaldes, é presença insinuada ou pressentida, o mesmo é dizer, a alma mater de outras tantas figuras populares do imaginário mindelense onde o nosso Zizim retira os seus mosaicos plenos de humor e humanidade.
Que significa mãe inteiramente assumida, mãe ignorada por um companheiro do acaso, mãe sofrida no silêncio do seu brio, mãe que não regateia sacrifício para criar a sua prole. Mãe que é também pai, dupla e simultânea condição parental que exige coragem, desvelo e sacrifício irrenunciável no dia-a-dia das lides da vida. Era Caela,
ela e mais ninguém quem assegurava o pão diário
dos seus filhos, e era ela quem exercia, sem delongas ou preterição,
a autoridade paterna, quando necessário com mão firme,
porque pobreza não significa vileza, pobreza é destino
mas não desatino. Assim devia pensar a Caela, mulher do povo
de S. Vicente. O Zizim conheceu muito bem a Caela, carregadeira de cais naquele "tchon de Soncente". Eu, pessoalmente, não me lembro de a ter conhecido como tal, mas tenho gravado na retina o cortejo dessas anónimas carregadeiras de cais que serpenteavam as ruas de Mindelo com os sacos de milho à cabeça a caminho dos armazéns. Ao recordá-las
hoje sob o sol inclemente do meio-dia, rostos perlados de suor, lábios
cerrados e olhar centrado na distância da caminhada, pergunto
se o heroísmo não convive paredes-meias com a nossa
rotina sem darmos conta disso. Ganhar a vida com honestidade tem um
preço exorbitante para alguns companheiros desta nossa peregrinação
pelo mundo. Já lá vai o tempo em que o transporte de mercadorias da antiga Alfândega para os armazéns se fazia no cimo da cabeça das mulheres. A vulgarização
do transporte automóvel alterou esse cenário das nossas
ruas mas ao mesmo tempo aboliu essa mão-de-obra barata, escandalosamente
barata, esse trabalho insano mas que era ganha-pão assegurado
para muitos lares da pobreza. Era esse o reino da Caela, onde ela
se impunha como uma força da natureza, onde se ouvia a voz
tonitruante e ridente do seu desafio ou do seu encorajamento, ou a
palavra de solidariedade para as companheiras mais débeis da
mesma labuta. Com os contos que têm sido divulgados, temos compartilhado com o Zizim o seu olhar sobre as singularidades do nosso meio de outrora, mas sobretudo essa sua vocação especial e sempre actualizada para honrar a gente humilde e sofrida e colocá-la num alto patamar de afecto. O coração
é a melhor bitola para avaliarmos aqueles que da vida colheram
mais infortúnio que ventura. E nisto o Zizim é inexcedível. Como não
ficar estupefacto com a facilidade com que ela arrumou 3 magalas que
um belo dia quiseram meter-se com ela lá para os lados da Praça
Estrela? Como não morrer de riso com a "fusca" de
deitar por terra que ela apanhou num dia em que lhe confiaram uma
aguardente-de-cana de estalo, por mero engano na escolha, para embriagar
umas dezenas de perus que se destinavam a abate para reabastecimento
de navios estrangeiros? Ou com aquela cena ocorrida entre ela e o
boi bravo que se soltou sobre o cais? Mas há um episódio que o Zizim me reportou recentemente que não vi ainda em nenhum conto, pelo menos por enquanto. Um belo dia, uma figura popular, conhecido futebolista, bateu num filho da Caela e a nossa mulher travou-se de razões com o agressor, porque ela era mesmo pai assumido em toda a largura da sua autoridade, e desaforo não levava ela para a casa. Conversa
vai, conversa vem com o sujeito que lhe bateu no filho, a Caela não
espera por mais nada. Ah sim, não te retractas? Levanta o punho
e desfere-lhe um soco tal que o nosso homem cai redondo. Conta o Zizim
que foi preciso borrifar-lhe água fria no rosto para que ele
desse acordo de si. É
evidente que as carregadeiras de cais não foram exclusivas
de S. Vicente, assim como o exemplo sublime das "mães
de fidje" cabo-verdianas pertence a todas a ilhas e é
intemporal. Infelizmente parece que o planeamento familiar ainda não
logrou produzir na nossa sociedade todos os efeitos que seriam desejáveis.
Mas a figura da Caela virá sempre à nossa memória sempre que se evocar a brava e indómita mulher do povo das ilhas. Adriano Miranda Lima |