|
A BARRAGEM DO POILÃO quando, há mais de um mês, recebi uma fotografia da barragem do Poilão, bem se pode adivinhar o meu regozijo pela construção daquela que é a primeira grande obra hidráulica na nossa terra, o que me levou a partilhar comentários de apreço com alguns amigos. Todavia,
passados uns dias, recebi um mail de um correspondente, a viver há
longos anos no Brasil, em que me dava conta da sua incredulidade por,
aparentemente, se ter empreendido a obra sem se considerar o grave inconveniente
para a saúde humana que decorria da presença de lagoas
de água estagnada à superfície. Durante quarenta anos sem ir a Cabo Verde, a imagem árida, ressequida e desolada da paisagem das nossas ilhas era o cliché que dominava o meu espírito. Mesmo que o não quisesse, a minha objectiva interior só por estultícia não focaria a realidade. No entanto, não ignorava alguns trechos pitorescos da ilha de Santo Antão, designadamente no Paul e na Ribeira da Torre, imagens que eu tinha captado pela última vez aos meus 13 anos de idade, quando visitei a ilha logo a seguir a um farto ano de "azágua". O meu avô paterno e a minha avó materna eram naturais de Santo Antão e esta circunstância criou-me no fundo do espírito uma espécie de ponte sempre aberta entre S. Vicente e a sua irmã mais velha, fazendo desta uma espécie de eleita entre o meu imaginário das coisas mais gratas, a que não eram estranhas a cordura do seu povo e as suas paisagens de prender a respiração. Para mim é sacramental visitar Santo Antão sempre que vou a Cabo Verde. Embora as longas e dolorosas secas que assolavam também a chamada ilha da montanha, sempre que chovia abundantemente pintavam-se nela quadros de rara beleza e instalava-se nas linhas de água o murmúrio de ribeiras estuantes de vida. Recordo-me de que entre a Povoação da Ribeira Grande e o Tarrafal se formava, com as chuvas mais fortes e prolongadas, uma tumultuosa ribeira que ia desaguar no mar mas acabava por se acumular numa vasta zona de cota mais baixa e formar uma pequena lagoa, a qual por longo tempo perdurava e se tornava um local de convidativos banhos e brincadeiras para a miudagem. Por outro
lado, o lugar de Mompatrás, a pouca distância de Tarrafal,
maravilhava-me igualmente com a sua ribeira que vinha do cimo e ia morrer
no mar, oferecendo-nos também motivos de entretimento e uma copiosa
captura de camarões com o auxílio de uma pequena rede
ou balaio de caniço. Por aquilo que vi há 3 anos, ou a
ribeira secou irreversivelmente, ou o seu curso sofreu um qualquer desvio
hidráulico, visto que encontrei construções mesmo
implantadas na pequena bacia da antiga ribeira. O certo é
que guardei sempre a visão de água que se perdia inutilmente
no mar. Ao regressar a Cabo Verde 40 anos volvidos, visitei a ilha de Santiago no mês de Outubro e tive a oportunidade de fazer um périplo pelo seu interior e periferia, na companhia do meu primo José Carlos Soulé. Como era a minha primeira visita à ilha e ela se me apresentava quase toda pintalgada de inebriantes tons verdes, imagine o leitor a que alturas subiu o meu deslumbramento quando os olhos me pareciam querer desmentir inapelavelmente o quadro de aridez habitual. Mas, claro, sabia perfeitamente que tudo era transitório, tal como em Santo Antão, apenas uma questão de tempo enquanto a falta de chuva não faz regredir a paisagem do nosso contentamento. Ante à
minha visão maravilhada das várias ribeiras que se iam
perdendo irremediavelmente no mar, o meu primo falou-me então
do projecto de construção de barragens, diques e açudes
que estava em vista e que com o tempo iria permitir melhor aproveitamento
da riqueza hídrica. Aplaudi efusivamente a ideia de um projecto
que quanto a mim só pecava por tardio, mesmo já no pós-independência.
Porque a administração colonial da história das
ilhas, como bem sabemos, remetia para as calendas gregas tudo o que
requeria um pequeno esforço que fosse para tirar as ilhas da
sua secular pobreza. A barragem do Poilão, depois das últimas chuvadas
Todavia, passados uns dias, recebi um mail de um correspondente, a viver há longos anos no Brasil, em que me dava conta da sua incredulidade por, aparentemente, se ter empreendido a obra sem se considerar o grave inconveniente para a saúde humana que decorria da presença de lagoas de água estagnada à superfície. Essencialmente, dizia o correspondente: "Fazer uma represa de águas pluviais? Represa se faz de águas correntes e permanentes de superfície, isto é, com reposição hídrica permanente. Esse represamento vai ser um viveiro de Anophelis gambiae, mosquito transmissor da malária (paludismo). Esses anofelinos, atualmente, não estão sendo apenas transmissores da malária, como também estão sendo vectores de um vírus que provoca edema cerebral e mata em 72 horas. Contra esses vírus ainda a ciência médica não possui vacina. Não
poderiam ver que em Cabo Verde as chuvas não são cíclicas
mas sim esporádicas? Entre uma chuvada e outra fica aquela enorme
poça de água estagnada, depósito dos ovos dos mosquitos
que transformar-se-ão em pupas que, se não forem devoradas
por nenhum predador em fase larvar tornar-se-ão mais e mais mosquitos."
Penso que o correspondente apenas opinou no pressuposto de não se ter realizado um estudo global com todas as implicações de uma obra como esta e outras que, esperemos, venham a passar da prancheta para o plano da realidade concreta. Pois, tudo
isto estaria certo se, efectivamente, as autoridades cabo-verdianas
tivessem ignorado em absoluto o que recomenda uma situação
desta natureza e não tivessem ouvido e auscultado, até,
os responsáveis dos países que adoptaram semelhante solução
hidráulica. Um projecto desta natureza requer estudos pluridisciplinares
e não se pode de boa mente presumir que eles tenham sido postergados. Como não vivemos hoje propriamente num mundo de alienados, e, assim, as ideias circulam veloz e abundantemente na Internet, chegou às minhas mãos há algum tempo a seguinte opinião do doutor Arsénio Pina, cujo saber e experiência recomendam que o acompanhemos, mas que transcrevo só no mais importante: "Israel, Canárias, Mauritânia e outros países vítimas de seca e sem rios só conseguiram dominar esta colectando água em albufeiras, lagos artificiais, cisternas gigantes, depósitos de toda a ordem, ou dificultando a sua passagem obrigando-a a infiltrar-se para enriquecimento da toalha freática, correcção torrencial e luta contra a erosão, através de banquetas, diques, represas e barragens. Claro que há o reverso da medalha, como tudo na vida, como criação de ambiente propício à proliferação de vectores de doenças (mosquitos e outros insectos e parasitas - entre nós, os mosquitos veículos do paludismo e febre amarela). Todavia,
há meios para prevenção dessas doenças e
de combate aos mosquitos, utilizados em várias zonas tropicais,
desde o uso de medicamentos, preventivamente, à utilização
de mosquiteiros impregnados de DDT (que parece estar a ser reabilitado
)
e de peixes do tipo Tilapias nas lagoas, tanques e poços (Em
S. Vicente, no meu tempo de delegado de saúde, os poços
tinham Tilapias que se alimentam de larvas de mosquitos), além
de medidas de higiene pública e saneamento geral que combatam
e penalizem o lançamento na natureza de garrafas, latas, bidões,
plásticos e outros vasilhames que possam conter água e
ser viveiros de mosquitos, como acontece entre nós nos períodos
de chuva. É
muito mais fácil e menos oneroso combater os mosquitos e as doenças
veiculadas por eles do que a fome causada pelas secas, morte de animais
e destruição do nosso ecossistema. E é
tudo quanto se me oferece dizer a respeito da reacção
às fotos da Barragem de Poilão. Presumo que as autoridades
estudaram o impacto dela sobre a região e as populações
e que medidas pertinentes estarão previstas e a ser implementadas." Entretanto, há poucos dias soube que elementos do exército estavam a realizar uma limpeza das águas da barragem por, entretanto, ter sido nelas vazado e acumulado algum lixo proveniente das populações vizinhas. Isto vem de facto elucidar-nos sobre o acervo de cuidados preventivos que há que não descurar, tanto no âmbito de severas medidas profiláctico-sanitárias como em relação a essa forma ainda algo prosaica e desleixada de lidar com o lixo na nossa terra. Sobre esta
última questão, há medidas que têm de ser
encaradas em dois planos distintos. Primeiro, vencer certas inércias
para que o saneamento básico melhore significativamente os seus
padrões de eficiência. Segundo, e em simultâneo,
agir com alto espírito de militância, como se fosse um
imperativo nacional, ao nível do comportamento social e cívico
das populações, sem o que todo o esforço conducente
ao progresso e desenvolvimento resultará de pouca valia, tal
como malhar em ferro frio. Estou inteiramente concordante com o ponto de vista do doutor Arsénio Pina. Na verdade, embora se não rejeite a ameaça potencial que para a saúde poderá reverter a água acumulada à superfície, o futuro da nossa terra passará em parte soberana pelo máximo aproveitamento dos recursos hídricos que a natureza ciclicamente faz desabar sobre as nossas ilhas, por vezes de forma estrepitosa. Não o fazer é consentir um desperdício imperdoável, quase criminoso. Na antiguidade, os romanos construíram obras de engenharia hidráulica que ainda hoje nos causam admiração, porque já nessa altura tinham consciência plena da importância da preservação da água. Mesmo em Portugal são numerosos os vestígios de barragens, açudes, cisternas, aquedutos, etc, daquele tempo. Frontino, um dos mais famosos curatores aquarum da Roma antiga dizia, a propósito dos aquedutos: "Comparai-os às pirâmides, que não servem para nada, ou às obras dos gregos, célebres em todo o mundo, mas inúteis". Parafraseando Frontino, eu diria que as obras hidráulicas em Cabo Verde não serão certamente obras de ostentação, nem tão pouco deverão servir como arma de arremesso político. Tomar,
25 de Outubro de 2006 Adriano
Miranda Lima |