DEPOIS DO COICE, VEM A PANCADA, lá diz o povo...

Malaquias regressou a Carnaxide com a família. Quando podia, lá ia colocando mais uma porta ou mais uma janela na casa recém-ocupada e sem recheio.

Madrugada fria de um mês de Fevereiro:

O Bairro acordou cercado pelas forças da Polícia de Choque, munida de escudos, bastões, viseiras e de todo aquele aparato bélico conhecido por todos...

Até parecia que a guerra do mato de Angola tinha chegado a Portugal gracejava o sipaio Gilberto, natural de Novo Redondo.

De megafone cinzento em punho, e com a correia preta voando ao vento, do alto de uma viatura verde-azeitona, com os faróis piscando, um agente barrigudo, de cara encarniçada, berrava do fundo do peito:

Vão ter de abandonar essas instalações, agora mesmo!

Os vizinhos e residentes foram aparecendo, um a um, ensonados, espantados, tímidos, embrulhados em mantas e de roupões...

Mas como vai ser?

- Para onde vamos com as nossas coisas? era a voz da mulher do Malaquias, com os dois filhos agarrados à barra da saia mal atada à cintura, gritando do alto de uma janela sem caixilhos e vidros, apenas tapada por um plástico pardacento salpicado de pingos de chuva.

Essas casas são do Estado, não sabiam? Temos ordens do Tribunal para as despejar, a bem ou a mal vociferava um dos agentes da ordem! Os cães ladravam e mais janelas abriam-se...

Pois é! dizia uma vizinha por serem retornados pensam que tudo isto já é deles! Vão mas é para a vossa terra era a voz de uma mulher cigana - que, pela certa, sempre viveu saltitando de Nação para Nação, recebida também como refugiada. Os galos cantavam nas ramadas das acácias...

O altifalante de cor cinza, já com as pilhas gastas, berrava:

Dou-vos, apenas e só, mais meia-hora...Depois, depois...

O tempo escoava ao ritmo de uma ampulheta, enquanto os refugiados deitavam contas à vida.
A força de choque entrou em força e despejou as casas, uma a uma, ficando os parcos haveres dos retornados amontoados na praceta: colchões podres sobre os quais tamborilava as gotas dos beirais, num tum-tum cavo, sinistro, aterrador de almas e corações despedaçados, ruído que, até hoje, passadas várias décadas, guardo nos meus ouvidos.

O lençóis esvoaçavam ao vento gelado da colina quais velas das antigas caravelas portuguesas partindo à descoberta de Novos Mundos, Dilatando a Fé, o Império... Novos Mundos e não sei do que mais - porra - gritava o Malaquias...

Os moradores rogavam pragas aos mentores da dita "descolonização exemplar"...

Lei é Lei! Nada mais podemos fazer balbuciava, comovidamente - e com a garganta apertada, um agente da ordem, de lágrimas na face, bem visíveis à luz de uma fogueira de tábuas de uma cama, ardendo a um canto!

Os refugiados, os mais fracos, contra os mais fortes, os da ordem, de armas, da DEMOCRACIA...
Malaquias chorava a um amigode peito:

- Se Cristo, com todo o seu poderio, foi levado ao Calvário e crucificado entre dois ladrões, sem nada poder fazer, que faremos nós, meu amigo, simples pecadores...Resignarmos...
Acenderam-se mais fogueiras na Praceta, ao lado dos parcos haveres das vítimas do Destino Cruel, do Fim da Aventura Colonial Portuguesa em África...

Os rostos assustados das crianças, o Malaquias relembrando-se com saudades da traineira, que, àquela hora, estaria igualmente a ser devorada pelas chamas num molhe qualquer do Algarve, o desespero estampado no rosto de todos, a impotência perante a fatalidade do Destino eram marcas bem visíveis.

Algumas pessoas da vizinhança vieram consolar os refugiados oferecendo-lhes cobertores, bebida quente e pão da Padaria do Sr. Nunes. No meio do caos generalizado ainda havia espaço para actos de solidariedade e gente de bom coração afirmava o sr. Aparício de Benguela, encostado a uma árvore despida pelo inverno rigoroso que já queria dar lugar à Primavera...

Malaquias e a família foram morar para o Bairro das Fontaínhas, nas Portas de Benfica, lá para os lados da Venda Nova. Alugaram um casebre por mil escudos. Era de cartão prensado, zinco e tábuas das obras e pertencera a um operário cabo-verdiano, de nome Mateus vulgarmente conhecido pelo Tázinho um homem, que, comido pelas saudades, resolveu regressar à sua ilha natal de S. Nicolau "para aí deixar os ossos..."

Nos anos sessenta vieram para as obras do Metropolitano, empreendimento que absorvia toda a mão de obra existente, nomeadamente carpinteiros de moldes e pedreiros de profissão. Ele e outros ajudaram a abrir túneis, montar andaimes e a encher as abóbadas com argamassa. Um dia teve a infelicidade de ser colhido por um desabamento de terras.

No acidente morreram alguns colegas (Lela, Toi e Zeca) e ele só escapou da morte por não ter chegado ainda a sua hora. Enterraram-se os mortos. Os vivos continuaram a navegar num mar de dificuldades. Nem seguro, nada, nada...

Mateus, aleijado de uma perna, resolveu abrir um botequim no seio do Bairro das Fontaínhas, local onde morava verdadeira colmeia de barracas de tábuas e latas - ao lado da esburacada Estrada Militar.

O Bairro era habitado, e ainda o é [1999], 25 anos após, por cabo-verdianos que trabalham nas obras e pelas mulheres, que servem de criadas nas casas dos novos ricos de Lisboa ou então limpando os Centros Comerciais da zona de Benfica.

Os filhos, esses ficavam [1975] a brincar no lodaçal cinzento dos esgotos abertos correndo pelas vielas de pedra e lama, misturados com os porcos, galinhas, pilões do milho para a cachupa e moedores de pedra para a farinhas das papas.

A fedorenta água dos esgotos a céu aberto escorria para as sinuosas vielas e valetas, estas esmagadas pelo peso dos rodados dos gigantescos camiões, circulando pela estrada-militar. Malaquias descrevia o botequim do Tázinho, situado ao fundo da Rua da Sodade, uma das sinuosas vielas que cruzavam a colmeia de barracas de zinco, tábuas e lona, bem no início da cidade de Lisboa mais precisamente nas Portas de Benfica.

A barraca do Tázinho estava bem pintada, exibindo um letreiro verde sobre o fundo branco de uma tábua de cofragem; as paredes eram caiadas a ocre encarnado, as janelas borradas de um verde escuro fazendo relembrar a Bandeira Portuguesa, a mesma que os traíra e fizera com que, por caprichos dos políticos ou do Destino, viessem parar a uma terra estranha - Portugal.

Era o fruto da descolonização exemplar do ex-ultramar português e das misérias de Cabo Verde abandonado...

O botequim chamava-se MORABEZA. O chão de cimento encarnado - sobras da massa das betoneiras - e algumas pedras à mostra, já desgastado pelo passar dos pés dos frequentadores daquele lúgubre local de bebidas, de comidas e de mulheres prostitutas, não faltando o cheiro a peixe frito, misturado com o do vapor do grogue.

Um balcão feito com tábuas de andaimes preenchia a parte dianteira das prateleiras de caixotes e caixas de plástico usados no transporte de cervejas e de gasosas. Empilhadas até ao tecto de zinco brilhante, viam-se garrafas de vinhos de várias marcas, maços de cigarros estrangeiros de contrabando, cordas de chouriços e peças de presuntos pendurados nas traves, escorrendo gordura para o tampo sujo do balcão.

Uma fraca lâmpada fraca de vinte e cinco velas, pendente do tecto escurecido pelo sujo das moscas, baloiçava mansamente sobre uma pipa de vinho, com o preço escrito a giz branco. Uma saca com peixe seco, certamente vindada Boa Vista, completava o panorama...

Nas paredes, os recortes de gravuras de Revistas e calendários de anos de 1965 a 1976...

Tázinho era tocador de violão e compositor, mas só entre amigos, pois não gostava de publicar as letras e músicas das suas mornas e coladeiras. Atrás de uma das portas, via-se uma folha de caderno de linhas, com a letra de uma morna que compôs aquando do desastre do túnel do Metro.

Intitulava-se

DESTINO DI HOME
(Destino do Homem).

Por entre a sujidade deixada pelas moscas durante vários anos, ainda se podia ler o seu texto:

(Em Lá-Menor)

Destino de homem,
destino triste,
destino de Deus
sempre buscando
caminho da Terra Longe.

Destino de homem,
trabalhar,
lombar nas obras,
para nada...
Para morrer
debaixo da terra longe..
Nossenhor,
se és amigo,
ajuda o teu filho
a morrer,
na sua terra,
terra escalavrada,
terra de mar fundo
sem fim,
terra de saudade,
terra de Morabeza,
nome deste
meu botequim...

Tenha dó, de mim, Nhor Deus,
deste teu filho Mateus...
Tázinho...
Que quer morrer
na terra de Cabo Verde.

 

Bairro das Fontaínhas, Junho de 1960


***

Os desacatos eram frequentes no botequim do Tázinho, principalmente aos fins de semana, quando os trabalhadores recebiam os salários, bebiam mais grogue e cerveja. A Polícia tinha medo de entrar no Bairro das Fontaínhas, um verdadeiro gueto, à entrada de Lisboa, caro leitor amigo...

Certa ocasião, houve necessidade de intervenção da Polícia Militar e o tiroteio ouvia-se como foguetes de S. João. Houve gritos e choros... Muitos, das suas janelas, aplaudiam a acção das forças policiais, gritando-lhes:

Acabem com essa corja de gente que devia estar nas suas terras...

Dê-lhe outro tiro porque ainda está vivo ouviu-se!...(*)

Os mortos e os feridos foram levados. A calma voltou ao Bairro, nesse dia do ano de 1976, em Lisboa, nas Portas de Benfica, mas o cheiro a pólvora ficou no ar, para sempre...

(*) N..A.
Embora possa parecer estranho o que aqui ralato, como testemunha ocular que fui, não podia silenciar-me voluntariamente perante a realidade histórica...


Foi este o local onde Malaquias encontrou a única barraca vaga para viver, chegando mesmo a desejar regressar a Angola, mesmo em guerra!

Mas como? Pensava ele! Sem o dinheiro para as passagens?! E os filhos na Escola Primária da Venda Nova, a algumas centenas de metros das instalações da então próspera CELCAT, uma fábrica de cabos eléctricos, hoje falida.

Na Escola, algumas crianças brancas das redondezas misturavam-se com a maioria de raça negra. Havia angolanos, cabo-verdeanos, timorenses e até um santo-mense.

À hora do recreio, era vê-las de caneca nas mãos bebendo o leite de caridade que a Cantina lhes oferecia, embora algumas, por orgulho, preferiam ficar com a barriga roncando de fome a terem de receber o leite da Caridade. Os filhos do Malaquias andavam na primeira e quarta classes.


***

Certa madrugada, o Bairro fora acordado pelo grito de fogo nas casas.O fumo e as chamas depressa tomaram conta das barracas espalhadas pelas vielas do Bairro das Fontaínhas, ouvindo-se o estrondo das explosões das bilhas de gás.

Os Bombeiros compareceram no local. Depois de extintas as chamas e feito o rescaldo do incêndio, meteram numa ambulância dois cadáveres de garotos da Escola da Venda Nova, retirados dos fumegantes escombros...

Eram os filhos do desventurado Malaquias...Pouco depois, chegava o pai, que, desde manhã cedo, fora trabalhar. Lavado em lágrimas de desespero, já nem sabia o que havia de fazer à vida, sentindo vontade de atirar-se à linha dos comboios que passava mesmo ao lado. Amparado pelos amigos, recuperou a calma....

O funeral dos dois pequenos foi acompanhado ao Cemitério de Benfica por colegas da escola, de todas as raças. Ao lado das covas, choraram meninos brancos, pretos e mulatos, numa comovente cena de comunhão racial...

Chovia e havia nevoeiro!
Uma chuva que entrava pelos ossos regava as muitas flores que enfeitavam as sepulturas. Os dois garotos do Bairro das Fontaínhas, vindos de tão longe, de Angola, foram a enterrar no cemitério de Benfica!

Era a vida! murmurava o Malaquias, aos ombros da mulher e dos amigos...
Os esguios ciprestes verdes, agitados pela força do vento que soprava no alto, indicavam ao infeliz homem de Lobito que o caminho era em frente...

Retornados ou refugiados havemos de triunfar... DIZIA!

V o l t a r