Poeiras
Fenómenos
de todas as circunstâncias
poisados nas prateleiras do tempo
maldição perene, omnipresente
beatitude inédita de todas as agruras.
Poeiras
que um dia me levam
mudamente à apatia das coisas
em improvisos ambientais
carregados de fatalidade.
Poeiras
reticentes do acaso
que levam tudo ao abismo
a toldar a cortesia anónima
sepultando-o na insensibilidade.
Poeiras
que levam e trazem sementes
que na noite húmida germinam
poeiras do húmus dos sensos
que irrompem a euforia da vida.
Poeiras,
índoles reflectidos da beleza
Partículas insuperáveis do nosso ser
Pisadas pelos pés, corroídas pelos pulmões
Em cada fôlego, subindo dos vivos e mortos.
Poeiras
lançadas pelos vulcões da vida
Poeiras das flores, amadas e odiadas
Que enchem os poros da nossa vida
Na invencível imensidade da microscopia.
Poeiras
repletas da vida e morte
De quase-vidas, estranhas quase-vidas
Olhadas nos raios que perpassam vitrinas
Incessantes partículas, em nós e fora de nós.
Poeiras...
Poemas do acaso
rasgos de redemoinhos impetuosos
que levam e trazem
o chamusco do tempo.
DOMINGOS BARBOSA DA SILVA