FUNDAÇÃO "ANTIGOS ALUNOS DO LICEU GIL EANES"

Não se trata de mero acto saudosista, de simples romaria de férias, cultivar a memória duma instituição como foi o Liceu Gil Eanes ou Liceu da Pracinha do Palacio (1937/1967?), centro da resistência ao colonialismo e ao fascismo, por onde passaram professores brilhantes como Adriano Duarte Silva, Alberto Leite, Baltasar Lopes da Silva, Antero João de Barros, José Alves Reis, António Aurélio Gonçalves e alunos excepcionais como Teixeira de Sousa, Gabriel Mariano, Amilcar Cabral, Abilio Duarte, João Manuel Varela e outros. Por mérito próprio, fez-se património nacional de todos os cabo-verdianos, e em especial daqueles que ali trabalharam e estudaram e que mais tarde se distinguiram em todos os aspectos da vida nacional.

A iniciativa dum reencontro dos antigos alunos do Liceu Gil Eanes (1965 a 1975), limitado a um grupo étareo especifico, pode ter deixado alguma mágoa no coração dos antigos gileanistas. Merece, entretanto, ser saudada pela ousadia e provocação por ter lembrado às gerações anteriores o dever de não deixar apagar na memória do tempo a história do antigo liceu.

Em Portugal, onde vive um núcleo de cabo-verdianos constituído por antigos alunos daquele estabelecimento de ensino, seja por iniciativa individual ou associativa, vem-se organizando uma série de actividades culturais, homenagens a professores e escritores, encontros de confraternização, no sentido de manter sempre vivas as lembranças das vivências naquela instituição, que foi durante muitos anos o único estabelecimento liceal em Cabo Verde e certamente uma das escolas mais importantes da consciência cabo-verdiana.

Mas porque ainda vivem em Cabo Verde muitos gileanistas, de várias gerações, estas homenagens devem fazer parte dum programa oriundo duma instituição com as suas próprias estruturas locais e que somente uma Fundação em Cabo Verde de Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes pode verdadeiramente perspectivar ao nível de todas as comunidades novas propostas para continuar a servir Cabo Verde.

Não se trata de mero acto saudosista, de simples romaria de férias, cultivar a memória duma instituição como foi o Liceu Gil Eanes ou Liceu da Pracinha do Palacio (1937/1967?), centro da resistência ao colonialismo e ao fascismo, por onde passaram professores brilhantes como Adriano Duarte Silva, Alberto Leite, Baltasar Lopes da Silva, Antero João de Barros, José Alves Reis, António Aurélio Gonçalves e alunos excepcionais como Teixeira de Sousa, Gabriel Mariano, Amilcar Cabral, Abilio Duarte, João Manuel Varela e outros.

Por mérito próprio, fez-se património nacional de todos os cabo-verdianos, e em especial daqueles que ali trabalharam e estudaram e que mais tarde se distinguiram em todos os aspectos da vida nacional. Assim a nossa intenção ultrapassa os momentos de confraternização porque, ao reunir à volta dessa Fundação todos os valores que passaram por aquele Liceu, pretendemos dar um novo contributo para a construção dum novo Cabo Verde que nos acompanha nesta digressão exilar.

O Liceu Gil Eanes nasceu das cinzas do extinto Liceu Infante D. Henrique, a 11 de Novembro de 1937, graças ao dinamismo do Porto Grande e também da sua população que soube acolher os jovens das outras ilhas. Mas os esforços do Dr. Adriano Duarte Silva foram determinantes na sua materialização em virtude da falta de quadros e da redução das subvenções para o ensino resultantes da subida de Salazar ao poder em Portugal e Colónias em 1928.

Segundo Baltasar Lopes da Silva, foi o Dr. Adriano, como era conhecido pela população, que o fez regressar a Cabo Verde após lhe ter sido rejeitado, por denúncia à PIDE, a sua candidatura ao cargo de professor da Faculdade de Letras de Lisboa. Adriano Duarte Silva era um homem de grande modéstia e tanto B.Leza, como Teixeira de Sousa, Manuel Ramos (Nena) e em especial o professor Baltasar Lopes lhe prestaram as justas homenagens.

Manuel Ramos (Nena), no seu livro "Mindelo d'Outrora", escrito com muito coração e que devia estar em todas as bibliotecas dos mindelenses, cita uma célebre frase do Dr. Adriano: "Quem não sente não é filho de boa gente e aquele que não reage contra a diminuição da sua personalidade não tem o sentimento da dignidade humana".

Precisamos duma Fundação dos Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes, com finalidade cultural, consubstanciada na colaboraçao técnica, material e financeira, visando a preservação, conservação e difusão do acervo histórico do Liceu Gil Eanes, com sede em São Vicente e delegações dispersas pelo Mundo.

Uma fundação capaz de criar parcerias, celebrar convénios, contratos e projectos apoiados em incentivos fiscais e programas de incentivo à cultura, governamentais ou privados, em Cabo Verde e no exterior.

- Uma fundação capaz de criar espaços destinados a palestras, seminários, simpósios, convenções e produção de vídeo e cinema, desde que tenha como finalidade promover e a melhorar as condições de existência da instituição.

- Uma fundação que organize cursos de verão e que emprenda acções culturais em favor dos cabo-verdianios das segundas gerações e encorage as geminações entre as instituições de Cabo Verde e as dos países da nossa emigração.

- Em suma, criar uma verdadeira universidade de verão, onde participem benevolamente todos os seus membros, contribuindo assim para o enriquecimento social, económico e cultural de Cabo Verde.

Sabemos que o Liceu Gil Eanes tem antigos alunos no actual Governo e em algumas Câmaras Municipais, mas pensamos que esta iniciativa poderia partir da sociedade civil em Cabo Verde ou ainda da Câmara Municipal de São Vicente, até porque o seu actual presidente, a Dra. Isaura Gomes, pertence à geração de 5O/6O daquele estabelecimento de ensino.

Este estender de braços de união para além de Mindelo e das ilhas e também para todos os cantos do Mundo onde vivem os antigos alunos do Liceu Eanes pode servir de alavanca para um novo relacionamento entre os Municípios e as comunidades emigrantes.

Mas a primeira acção consiste em reconstituir os arquivos do Liceu da Pracinha, para a reelaboração da sua história, desde as sebentas aos cadernos diários, passando pelos mobiliários, pelas pautas, as actas, as cadernetas, os livros de ponto, os "cábulas" famosos, cartazes de espectáculos de grupos culturais, de torneios desportivos que contam o itinerário do Liceu, do seu nascimento à sua partida para a Chä de Cemitério, que é já uma outra histária onde não estamos.

Temos também de dar corpo a um inventário dos homens e mulheres que por aquele liceu passaram, saber onde estão e o que podem fazer para honrar o prestígio do Liceu Gil Eanes ao nível da educaçao, da literatura, da música, do desporto, da emancipação da mulher, da vida política, do investimento financeiro, etc.

Não sejamos ingratos com a memória do Liceu Gil Eanes, dos seus professores, dos seus funcionários e, em especial, do chefe máximo do pessoal mínimo (quem era?). Ainda há dias, o excelente compositor Dany Mariano veio-nos lembrar esta dolorosa frase de Baltasar Lopes, expressa num dos números da revista 'Ponta & Virgula': se Capristano de Abreu (historiador) tivesse conhecido o cabo-verdiano não diria que o brasileiro é o homem mais ingrato do Mundo.

Como compreender que não mais se fale da Fundação Baltasar Lopes ou ainda das razões porque o seu nome não tenha sido dado a nenhum Liceu ou estabelecimento de ensino em Cabo Verde? Os ingratos somos nós, os seus antigos alunos que nada fizeram para reconhecer a sua importância nas nossas vidas profissionais como também na afirmação da Nação Cabo-verdiana.

O antigo prédio do Liceu Gil Eanes precisa ser recuperado de forma a assumir a sua função cultural fundamental na história cultural de Cabo Verde. Não há um outro local em Cabo Verde que melhor mereça receber a futura Faculdade de Letras de Cabo Verde, pelo simbolismo que carrega nas nossas memórias e na história de Cabo Verde. Ali tomou corpo a revista 'Claridade', nasceu a revista 'Certeza', como também ali nasceu uma geração de poetas, pintores, músicos, combatentes, que participaram nas lutas de reveindicação cultural e da Independência.

Aliás, foi o Amilcar Cabral quem afirmou que a luta de libertação é antes de tudo um acto cultural. Não poderia a Fundação Liceu Gil Eanes conservar os arquivos dos Claridosos, em especial de Baltasar Lopes, Manuel Lopes, António Aurélio Gonçalves, Jorge Barbosa e Felix Monteiro, cujo filho Armando Monteiro, residente na Argentina, tem feito esforços em vão para entregar os arquivos do pai à Câmara Municipal de São Vicente, de músicos como Luis Rendall, que ali trabalhou, de B.Leza, Jotamonte, Tututa, Abilio Duarte, etc..

Cabo Verde ganha com esta fundação porque será a primeira instituição que une várias gerações de cabo-verdianos e que num só corpo acolhe todos os cabo-verdianos residentes nas ilhas como do exterior à volta de problemas comuns. Será a primeira escola de reintegração e da unidade dos cabo-verdianos em igualdade de direitos e deveres. Acrescento ainda que a crise que atravessa o associativismo cabo-verdiano pode então encontrar um novo modelo e novas práticas, contribuindo em especial para ajudar as segundas gerações a continuar a participar na continuidade de Cabo Verde no exterior.

A emigração, o drama maior de Cabo Verde, não somente responsável pela fuga de quadros mas também de outras forças necessárias ao desenvolvimento de Cabo Verde, deve ser analisada em todos os seus ângulos, positivos ou negativos, trazendo novas propostas para a sua participaçao na vida nacional. Negar o debate sobre a emigração reduz a importância da Fundaçao que, em princípio, deve lutar contra o elitismo e a divisao das comunidades emigradas.

Não vamos esperar que uma ONG, dirigida por estrangeiros, com falsas promessas, venha com fundos duma organizaçao internacional fazer aquilo que é o nosso dever. A defesa da nossa cultura é um dos deveres dos gileanistas porque sem o Liceu Gil Eanes não haveria nem a 'Claridade' (Baltasar Lopes, António Aurélio Gonçalves) nem a 'Certeza' (Teixeira de Sousa, Nuno Miranda, Arnaldo França), poetas e políticos como Amilcar Cabral, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Abilio Duarte, de músicos de excelente renome como José Alves Reis, Luis Rendall, B.Leza, Jorge Monteiro, Tchuff, Tututa, uma nova geração de pintores engajados e iniciados por Abilio Duarte e Manuel Figueira e ainda uma geração de combatentes que enriqueceram o ideário da Independência.


Somos portadores duma grande missão histórica que se tem manifestado em todas as lutas necessárias para Cabo Verde. Face ao neocolonialismo que pretende impor a mundialização, à pirataria cultural de que está sendo vítima o Terceiro Mundo, ao uso da cultura para fins exóticos e turísticos e não como lugar de memória e tradição do povo, os gileanistas em Cabo Verde e os dispersos em todos os cantos do Mundo devem lançar a Fundaçâo Liceu Gil Eanes, respondendo numa só voz: - Pronto S'or, S'or, como era o nosso hábito!
Caboverdianamente,


Luiz Silva, Paris, Agosto 2006

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COMENTÁRIOS


1. Não costumo fazer comentários aos textos dos meus colegas de jornal (nem a comentários de comentários), por mais que aqueles me agradem. Sobretudo, se mantiver com os autores uma relação de companheirismo e amizade, como acontece com alguns deles. Mas o caso presente é excepcional e por isso não me posso furtar a dar um grande abraço ao Luiz Silva pelo trabalho que aqui colocou e o meu SIM! mais veemente ao conjunto de ideias que teve. Que todos, mas mesmo todos os que pisaram o tchom daquele pátio se juntem, se dêem as mãos, independentemente de idades, classes, ideologias e outros aspectos potencialmente dissuasores e façam pelo velho Gil aquilo que ele merece, honrando o papel fundamental que teve na formação da nação cabo-verdiana - e que, como é óbvio, pode e deve continuar a ter.

nome: Joaquim Saial
email: joaquimsaial@gmail.com

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2. Trata-se de uma excelente proposta! As minhas felicitações ao Luiz Silva por apresentá-la. Embora a organização deste 1º Encontro de Alunos do Antigo Liceu Gil Eanes (Geração 1965-1975) tenha tido desde início o propósito de se vir a converter em algo mais ambicioso, como a realização de uma Bienal de Arte e Cultura do Mindelo, não pude deixar de me perguntar a mim mesma após o seu encerramento - como outros se terão perguntado - "E agora?...".

Julgo que uma Fundação com o perfil sugerido pelo Luiz Silva preencheria todas as condições necessárias não só para dar continuidade aos Encontros de Antigos Gileanistas, como também para servir como instituição promotora da bienal e de outras actividades culturais e artísticas em cabo verde, mormente em S. Vicentete, ao longo de todo o ano.

Enquanto membro da organização do 1º Encontro, aproveitaria para fazer notar, uma vez que me parece ter havido algum mal entendido a esse respeito, que todas as actividades culturais incluidas no programa do Encontro(Exposição Fotográfica e Bibliográfica Mostra de Cinema, Feira do Livro, Palestras, Mesas Redondas e Teatro) eram inteiramente abertas ao público! tanto assim que tiveram lugar, na sua esmagadora maioria, em espaços públicos disponibilizados pela Câmara Muncipal de S. Vicente e pelo ministério da Cultura.

A restrição de entrada abrangeu apenas as actividades com carácter de confraternização (passeio, visitas e almoço), e as sessões de Abertura e Encerramento. Estou inteiramente de acordo que, após esta 1ª experiência, essas actividades "restritivas" devam ser alargadas a todos os gileanistas sobre a face da terra (e seus convidados, claro)!


nome: Fátima Monteiro
email: monteiro.fatima@netvisao.pt

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3. Trata-se de uma proposta séria, bem pensada e exposta com clareza. Considero-me um "gileanista", embora não tenha lá completado o "terceiro ciclo". Soube da reunião dos antigos alunos, através de amigos. Não sei se poderia estar presente, mas de qualquer forma fiquei um pouco triste porque os da minha faixa etária tinham ficado de fora. Frequentei o "Gil Eanes" de 1954 a 1959... Gostaria bastante de ver nascer um dia, oxalá brevemente, uma Fundação abrangente, conforme apresentada pelo Sr. Luís Silva.


nome: Antonio Fontes
email: antoniofontes@verizon.net

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4. Acho a ideia magnífica e o meu amigo Luiz Silva pode contar com o apoio da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (que inicialmente se chamou A.A.A. do Liceu Gil Eanes mas depois mudou de nome para se tornar mais abrangente), julgo saber que o Grupo que há 27 anos realiza os Encontros dos Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes também não negará o seu apoio e claro a Federação das Organizações Caboverdeanas em Portugal e eu próprio, a título pessoal, estamos disponíveis para ajudar a dinamizar a ideia e levar para diante o projecto.


nome: A. Rui Machado
email: a.ruimachado@netcabo.pt

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5. Tal como pensa o Joaquim Saial, julgo que os habituais colunistas devem coibir-se de se comentarem reciprocamente, por razões que são óbvias, mas também devido a alguma chicana que alguns comentadores têm trazido a estas páginas, originada por diferenças ideológicas e de pontos de vista, ou por outros motivos menos apreensíveis, mais do domínio da psiquiatria.

Assim, já me tinha determinado não mais fazer qualquer comentário a artigos ou outros comentários. Contudo, perante esta muito valiosa e pertinente proposta que o amigo Luiz Silva nos traz, entendo que ninguém se deve inibir de uma opinião ou achega sobre o seu conteúdo, tenha sido aluno gileanista ou não.

Acho que o Luiz expôs de forma muito clara e convincente as razões por que o "espírito" do antigo Liceu Gil Eanes deve transformar-se em tal pólo de actividade cultural, com naturais repercussões em todo o país. A figura "Fundação Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes" poderá, à primeira vista, desencorajar a adesão, ou compreensão, de alunos que frequentaram o outro liceu (da Praia), pelo sentimento de exclusão que daí poderá suscitar-se.

Mas a verdade é que, com uma iniciativa desta natureza, mais não se pretende que ser fiel à história da cultura do país e valorizar uma memória e um ícone patrimonial. Daí eu pensar que ninguém pode, de boa mente, ignorar o papel primordial, e pioneiro, que o antigo Liceu teve na consciencialização cultural do povo de Cabo Verde, como bem diz o Luiz ao lembrar que foi onde tomaram corpo os primeiros movimentos literários cabo-verdianos.

Deste modo, é lícito pensar que os antigos alunos do liceu da Praia não deixarão de reconhecer o fundamento histórico de uma medida com esta intenção e finalidade, daí que, em vez de exclusão, se deverá falar de algo necessariamente aglutinador, num país em que a política governamental tem de promover a salvaguarda de todo o património cultural, seja em que ilha se situe.

Assim como todo o cabo-verdiano reconhece o valor histórico da Cidade Velha, a primeira cidade do arquipélago, do mesmo modo deve reconhecer a importância pioneira e decisiva do antigo Liceu Gil Eanes. Acho que será uma justa decisão, conforme refere o Luiz, instalar no antigo liceu Gil Eanes a futura Faculdade de Letras de Cabo Verde.

Não direi que será ouro sobre azul, por compaginar-se com a ideia da fundação, mas será,ainda, noutro ângulo de visão, uma medida de equilíbrio regional, que de que não pode descurar a política de distribuição de recursos. Creio que à Câmara Municipal de S. Vicente caberá uma palavra decisiva em tudo isto que o Luiz em boa hora nos trouxe à reflexão.


nome: Adriano Miranda Lima
email: amlima@netcabo.pt

V O L T A R