Escravos Negros em Portugal:

O QUE A HISTÓRIA DE PORTUGAL NÃO CONTA:

ESCRAVOS EM PORTUGAL
Escravos Negros em Portugal:

9. - A INFLUÊNCIA DO ULTRAMAR NO LUSOFONISMO
de: Carlos Mário Alexandrino da Silva

O ambiente ultramarino que desde cedo se viveu em Portugal exerceu sua natural influência na língua portuguesa. Essa influência foi considerável durante mais de dois séculos, aumentando paulatinamente, o que não é para estranhar.

Na verdade, tudo o que constitui novidade, como aconteceu com a expansão portuguesa, se repercute mais ou menos profundamente na língua. Tornou-se nota de bom tom, de elegância, ou de provincianismo, mais simplesmente, o emprego de vocábulos orientais.

Nenhum nome, porém, a julgar pela literatura do tempo, foi tão corrente em Portugal, pelo menos nos séculos XV e XVI, como os de Negro e de Guiné, este último no sentido de África Ocidental mas também como sinónimo de África em geral.

Fazendo-se uma rápida devassa aos textos literários constata-se a freqüência com que são empregados os dois vocábulos, por um lado e, por outro, a ausência de preconceitos de raça, pelo menos aparentes, dos Portugueses em relação aos Negros.

Sem dúvida que não pode deixar de notar-se-lhes, nalguns casos, uma cambiante pejorativa, não sendo essa, todavia, ofensiva da sua dignidade de homem, como no exemplo seguinte extraído do Auto de Dom André:

"Todo homem que é sesudo
De sua nação o é;
Havei-lo de ser em tudo
E não negro da Guiné."

Se é certo que a situação dos escravos negros não era de todo invejável, não pode dizer-se que os brancos, também escravos, fossem mais bem tratados.


Não nos envergonhamos de repetir que Negro e Guiné, e mais tarde preto, são portanto termos extremamente correntes. Retornando à toponímia, que já abordamos, vamos citar mais alguns exemplos:

No concelho de Vinhais existe a freguesia de S.Bartolomeu de Negredo, no de Barcelos a de Santa Eulália de Negreiros e o lugar chamado do Preto e no de Santo Tirso encontram-se S. Mamede de Negrelos, S.Tomé de Negrelos, Santa Maria de Negrelos.

Vale de Negros é o nome de um povoado do concelho de Ancião, Pero Negro o de um outro no concelho de Arruda dos Vinhos. Nos concelhos de Montalegre e de Óbidos temos, respectivamente, as freguesias de Santa Maria Madalena de Negrões e como já dissemos, a de Negros ou A dos Negros.

Recomendamos aos que estão lendo este trabalho, que leiam a magistral obra do Padre António Brásio " Os Pretos" para conferir quanto estamos comunicando, citando-o embora sejamos... ateu. No concelho de Loulé há o lugar chamado Cerro dos Negros, no de Almeirim há uma povoação com o nome Paços de Cima ou dos Negros.

Dois povoados dos concelhos de Albufeira e de Silves chamam-se Guiné, no concelho de Alvito existe a povoação chamada Horta de Guiné. A dos Pretos, Monte dos Pretos e Quinta da Preta são os nomes de povoações dos concelhos de Leiria, Estremoz e Alcobaça conforme refere J. Leite de Vasconcelos in "Etnografia Portuguesa, IV, Lisboa, 1958, p. 46.

Seria exagero afirmar que houve um grande enriquecimento da língua portuguesa com a adoção (à brasileira) de vocábulos importados de línguas exóticas, do ultramar, porquanto, na realidade, isso ficou limitado no tempo e no espaço:

No espaço porque, a maior parte do léxico constante das listas anteriores foi de uso corrente apenas no Oriente, nas regiões onde os Portugueses se fixaram, raramente passando a regiões de continentes diferentes ou aclimatando-se na ocidental praia lusitana.

No tempo, porque na generalidade os termos que foram mais ou menos correntes em Portugal acabaram por cair em desuso, passado o período de mais intensa atividade (à brasileira, sem ct) comercial entre Portugal e os territórios ultramarinos.

Hoje, sobretudo graças à Televisão ( novelas da Rede Globo, em particular) assiste-se em Portugal a uma franca aceitação de neologismos brasileiros que conquistaram em partivcular a faixa jovem da população.

E ainda bem... porque o Português escrito e falado no Brasil é, a nosso ver, mais rico, menos esclerosado e mal-sonante, por ser plástico, receptivo a neologismos necessários de origem "alienígena" nas áreas científica e tecnológica, sobretudo no campo da Informática ou ( como dizem em Portugal) Computação, e inovador.

Falado, é aberto, alegre, dinâmico, agradável ao ouvido, despido de desagradáveis sons graves e sibilantes. E sua ortografia, muito facilitada, até na acentuação e na sintaxe, é muito mais assimilável do que a portuguesa, a qual nem sequer é arcaica mas sim anacrônica.

Quem estas linhas escreve, para poder ser entendido como docente em universidades brasileiras e no ensino médio oficial teve de se adaptar e, francamente, não nos arrependemos, pelo contrário. Hoje preferimos o Português do Brasil.


Soubemos no Brasil, há anos, da campanha que o Partido Comunista Português, patrono do chamado Movimento Popular de Libertação de Angola - Partido do...Trabalho (!?), moveu contra a crescente adoção da gíria e maneira de falar e escrever o Português dos brasileiros divulgados pelas novelas da empresa supra citada, considerando desnacionalizante esse fenômeno!

Também um comunista do Partido Comunista do Brasil (PC do B), deputado federal, apresentou recentemente uma proposta de lei, que infelizmente foi aprovada, proibindo no Brasil a adoção de estrangeirismos, mormente "americanismos" (anglicismos, aliás) que "desnacionalizem" a língua portuguesa falada e escrita... Heródes e Pilatos...

E nós, defensores do lema globalizante "ONE PLANET, ONE PEOPLE", da cidadania mundial (por ora uma utopia mas que há de vingar no nosso planeta, inevitavelmente), que julgávamos que os partidos comunistas, marxistas, deviam ser... internacionalistas!!!

O que importa, essencialmente, é pôr em destaque o vocabulário que passou a fazer parte integrante da língua, de tal modo que , em seu sentido próprio ou figurado, é hoje correntio, sem que se pense ou se suspeite por vezes da sua origem. Mas esse vocabulário revela o triunfo da inovação, da aceitação de neologismos, da dinamização linguística por enriquecimento vocabular.

No campo das relações humanas o aparecimento de certos vocábulos, ao contrário do que acontece com criações de natureza militar e religiosa, está obrigatoriamente dependente das atividades ultramarinas:

Cafraria ( de país dos Cafres, conjunto de cafres e selvajaria) cabe nesta observação, uma vez que cafre cedo se vulgarizou em Portugal. Escravo deu lugar, sem contar com os seus diminutivos, aos sinônimos escravagem e escravaria (multidão de escravos), escravatura( grande conjunto de escravos, antes de significar o comércio de escravos) e escravidão. Negraria designava a multidão de Negros. O adjetivo negrício exprimia o que era próprio de Negro.

Chamava-se escravo fuigião, diz Morais, aquele que tinha por costume fugir ao seu senhor. Tangomao significava aquele que resgatava e comprava escravos no sertão e também aquele que indo ao sertão negociar mercadorias de outrem não retornava para prestar contas e também o que abandonava a vida civilizada passando a viver entre os negros, adotando seus costumes, chegando a andar nu e a tatuar-se como conhecemos um caso no Icolo e Bengo, de um ex-advogado formado na Universidade de Coimbra, Pardo, e outro em Mutarara, Zambézia, Moçambique, em 1951.

Recomendamos de novo Leite de Vasconcelos em Revista Lusitana, V, Lisboa 1897-1899, pg.80, e Sousa Viterbo em seu opúsculo Os Portugueses e o gentio. "Lançado", substantivação do particípio passado do verbo lançar, significou, desde o começo do século XVII, o português que em África passava a viver com os Negros, sendo pois, sinônimo de tangomao. "Matuto", mais recente, deriva de mato, assim como matutar e matutice (ver GLOSSÁRIO, Dalgado, II, p.253).

Vejamos agora a palavra reinol que em breve abordaremos, como lusodescendente de origem hindustânica (goesa), em trabalho que, se vivermos até lá, vamos fazer sobre os Piratas Portugueses de Bengala e a Guerrilha anti-portuguesa dos Rhanes e sua luta de 60 anos: data do século XVI, provavelmente ainda da primeira metade e era, na Índia, sinônimo de português da Europa, recém-chegado; a este respeito escreve Pyrard de Laval: "Os que chegam novamente à India são chamados reinóis, isto é, homens do reino, e os mais antigos mofam deles até fazerem uma ou duas outras viagens e terem aprendido os costumes e manhas da Índia."

Aos lusodescendentes ou mestiços de indiano e português, os portugueses davam o tratamento pejorativo de "cús-lavados, aos macaenses ou macaístas, mestiços, o de "macaios" e aos chineses o de "chinas". "Fusco" e "pardo" têm cabimento aqui, mau grado pertencerem também ao grupo dos vocábulos que enriqueceram o seu sentido: "Pardo" era sinônimo de mulato ou amulatado, quaisquer que fossem as raças de cruzamento."Fusco" tinha um sentido mais preciso; era propriamente o descendente de mulato e preta ou vice-versa, que mais recentemente, quando o predomínio genético era do progenitor leucoderme, passou a ser tratado por "cabrito".

No Brasil e em Cabo Verde usam muito o termo "crioulo" cuja etimologia está hoje, por assim dizer, esclarecida, quer seja formado de "criar" mais o sufixo "olo", quer derivado de "criadoiro", que deformado pelos Negros, passaria sucessivamente pelas formas craoiro-criooiro, crioilo-crioulo.

Significava por um lado o fâmulo criado desde a infância em casa do senhor ou o animal, a cria que nasce em nosso poder, por outro lado o Negro nascido no Brasil, em oposição ao que procedia diretamente (à brasileira, sem ct...) da África.

O primeiro sentido é testemunhado desde o século XVII pelo missionário Fernão Queirós, ao referir-se a "um clérigo que disse ser dos Cristãos de S. Tomé e fora crioulo do Padre Reitor." Por outro lado, foi corrente a expressão galinha crioula, ou seja, a que nasce e se cria em casa e não é portanto comprada, assim como poldro crioulo, novilho crioulo.

O segundo é apontado por Morais in Vocabulário, II,e figura em meados do século XVIII no "compromisso da Irmandade do Senhor Bom Jesus" (da Cachoeira, Brasil: " Não se admitirão nesta Irmandade os homens pretos nacionais desta terra a que vulgarmente chamam crioulos." Mas significou também mestiço, ao que parece, na medida em que Frei Luís de Sousa, em referência ao Congo, escreve: "Era muito valido del rei um sacerdote crioulo (assim chamam lá os que têm mistura de dois sangues." (Apud Dalgado, GLOSSÁRIO,I, p.322).

Indiático, corrente como adjetivo, refere-se à Índia, também como substantivo- o natural da Índia ou o português que regressara rico da Índia.

10.- NA LÍNGUA PORTUGUESA: O PAPEL IMPORTANTE DA METÁFORA....

Sem dúvida nenhuma, a metáfora desempenha na nossa língua um papel muito importante. É particularmente reconhecível nas atividades relacionadas com a EXPANSÃO ULTRAMARINA e, sobretudo, no que diz respeito à terminologia náutica.

Mas convenhamos que seria manifesto exagero considerar sempre como uma conseqüência exclusiva da Expansão, o sentido figurado de muitos vocábulos ou expressões.

Enquanto se não possuírem léxicos mais completos da língua portuguesa, torna-se difícil fazer a destrinça entre o que é resultado da Expansão e o que é independente ou anterior a ela.

Tem forçosamente de admitir-se que o sentido figurado de muitos vocábulos poderia ter resultado sem necessidade de ir buscar origem no Ultramar, sendo ainda mister não olvidar, por outro lado, a influência, em certos nomes, da Literatura Latina.

Os verbos não são os únicos vocábulos de emprego metafórico.
Mas reparem neste verso do Auto de Dom Fernando:

"Isso faz homem àquelas
que sente que são mudáveis
e que amam com cautelas;
mas as que amainam as velas
entregar-lhe logo as chaves."

Na HISTÓRIA DE ANGOLA, de Silva Correia, que data do fim do século XVIII, nota-se o sentido pejorativo de "corja" na seguinte passagem: "Este general concebeu o projecto de aumentar o número dos recrutas com os mulatos nativos, propondo à Corte libertar esta corja imensa de vadios que não servindo de algum benefício a seus senhores escapam à sujeição de soldados com a vil indulgência de escravos."(p.72)


Em MISCELÂNEA de Garcia de Rezende, na PEREGRINAÇÃO de Fernão Mendes Pinto, nos PANEGÍRICOS de João de Barros e nas trovas do poeta Antônio Ribeiro Chiado encontramos, entre outros, farta referência vocabular de origem ultramarina ou alusiva à Expansão.

Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Antônio Delicado, Bluteau, quantos autores que foram buscar ao então Portugal realizado fora de Portugal, o Portugal Ultramarino, vocábulos ou alegorias que aumentaram o acervo lusófono!


O Professor Doutor Luís de Matos em sua apostila História da Expansão da Cultura Portuguesa no Mundo, a páginas 207, escreveu:

"A conclusão impõe-se. Em menos de um século de Expansão criara-se na Metrópole um largo ambiente ultramarino que foi vivido pela grande maioria da população e que se reflectiu profundamente em múltiplos aspectos da vida do país.

A língua não escapou a essa influência: enriqueceu-se em várias direcções, quer pela incorporação durante mais ou menos tempo ou definitivamente do vocabulário exótico, quer pela movimentação do léxico anterior à Expansão ou dos seus novos sentidos, quer enfim pela criação de neologismos."

É rica a bibliografia existente a este respeito, cumprindo-nos indicar, a quem nos está lendo, três obras muito importantes, sobre Escravos Negros em Portugal:

- NOTAS SOBRE A FALA DOS NEGROS EM LISBOA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XVI, in Revista Lusitana, XXX (Lisboa, 1932), autor- GIESE, Wilhelm, pág. 251-7


- MOUROS, JUDEUS E NEGROS NA HISTÓRIA DE PORTUGAL, Porto, Livraria Civilização - Editora, 1940, autor - LIMA, J.A. Pires de
- OS PRETOS EM PORTUGAL, Lisboa, Agência Geral das Colônias, 1944, autor- BRÁSIO, Antônio, S. Sp..


- HISTÓRIA DA SOCIEDADE EM PORTUGAL NO SÉCULO XV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1903, autor- LOBO, ª de Sousa Silva Costa.


- DICIONÁRIO ETIMOLÓGICO DA LÍNGUA PORTUGUESA COM A MAIS ANTIGA DOCUMENTAÇÃO ESCRITA E CONHECIDA DE MUITOS DOS VOCÁBULOS ESTUDADOS, Editorial Confluência , Lisboa (1956 e 1959), 2 vols., autor - MACHADO, José Pedro.


- A INFLUÊNCIA AFRICANA NO PORTUGUÊS DO BRASIL, 3ª edição, Porto, Livraria Figueirinhas, 1948, autor - MENDONÇA, Renato de.

11. - OS ESCRAVOS COMO INSTITUIÇÃO DE " PREVIDÊNCIA SOCIAL " EM PORTUGAL A PARTIR DO SÉCULO XVI....

Não se referem os livros de História de Portugal, para fins didáticos, à maneira como no passado pós-medieval, não havendo senhores feudais nem servos da gleba, se fazia a assistência na velhice ou na doença, não havendo ao tempo instituições de previdência social que, como se sabe, tanto em Portugal como no Brasil, só foram criadas e regulamentadas... nos períodos históricos modernos, do século XX, décadas de 30 e 40, em que "ditaduras... fascistas" assumiram o PODER e nele se mantiveram por longos anos:

Antônio de Oliveira Salazar em Portugal e Getúlio Vargas no Brasil. Um e outro plagiaram os princípios e fundamentos, o sistema, a estrutura e as leis do corporativismo do "Duce" Benito Mussolini e copiaram, ou traduziram, sem referir a origem, o Codigo del Laboro italiano que ainda hoje subsiste na chamada CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) brasileira. Mas ao tempo dos descobrimentos nada disso existia...

Sendo assim, sabendo-se que a nobreza tradicionalmente estava protegida em seus castelos e heranças fundiárias feudais, em seus morgadios, tenças e pensões reais, o mesmo se passando com a hierarquia da Igreja Catôlica e com o clero menor, havendo então uma classe burguesa de mercadores enriquecidos pelo novo sistema econômico e ordens religiosas opulentas e ricas, ocorre perguntar qual era então a situação, em termos de seguridade social, das classes menos favorecidas e dos mestres de ofícios?

A história dessa época mostra-nos que a nobreza não estava muito voltada para a propriedade e uso de escravos negros, não por rácismo ou etnocentrismo mas porque seu orgulho a fazia ostentar a riqueza e independência que possuía, deixando para a plebe em suas faixas possidentes a propriedade, posse, e usufruto das "coisas" chamadas escravos (negros, pardos, amarelos, brancos...)

Os nobres faziam questão de exibir sua grandeza utilizando plebeus, homens livres, assalariados, a quem pagavam seus serviços como domésticos e artesãos, mas ... "brancos", ex-servos da gleba do período do feudalismo.


Porém, os mestres de ofícios, os artesãos e pequenos proprietários rurais ou mercadores faziam questão de poupar, de aforrar para, prevenindo-se contra os males da inatividade por invalidez ou por velhice, adquirirem dois ou três negros ou negras com quem não coabitavam em não poucos casos, pois estes viviam nos seus bairros ou confrarias, mas que exerciam mesteres remunerados, até para serviços mais pesados ou "exigentes" (como a recolha dos despejos e latrinas domiciliares), num curioso sistema de parceria com os seus "donos".

É aí que aparecem, entre diversas profissões, as "Negras do Pote" que abasteciam de água potável as residências de nobres e plebeus transportando o precioso líquido desde os fontanários, as lavadeiras, as "amas", as "peixeiras" com canastras à cabeça percorrendo as tortuosas ruas da Alfama, da Mouraria, e outras, vendendo e apregoando alegremente o pescado trazido da Ribeira das Naus (Cais do Sodré, hoje) onde o pegavam de pescadores, com freqüência escravos, a quem o adquiriam, as "Negras de ganho", os almocreves, os moços de recados (naquele tempo não havia serviços de correio que só foram criados na Europa na primeira metade do século passado), os moços de estrebaria, os carpinteiros da Ribeira das Naus (onde escravos e homens livres desempenhavam as mesmas tarefas e conviviam livremente ganhando o mesmo como remuneração do seu labor, etc., etc..

Tais escravos não usavam cangas, nem grilhetas nos pés, nem correntes; eram relativamente bem tratados pelos seus senhores que com eles dialogavam e dividiam o dinheiro ou valores troca (de escambo algumas vezes) obtidos com seus serviços ao público consumidor... Era, repetimos, uma parceria, mediante a qual os escravos iam fazendo poupanças para algum dia comprarem de seus senhores a sua carta de alforria, tornando-se livres...

Vários se notabilizaram e como Tinhorão nos diz em sua magnífica obra "OS NEGROS EM PORTUGAL - UMA PRESENÇA SILENCIOSA" (Editora CAMINHO- coleção universitária, Lisboa, 1988) houve casos em que se tornaram ídolos populares como o de um toureiro Negro, século XVII, cujas façanhas tauromáquicas na Praça de Touros, em Lisboa, lhe rendiam calorosas ovações até ao dia em que, temerariamente, perdeu a vida numa tourada de "touros de morte"... quando já supunha ter ferido mortalmente a sua possante vítima.


Fechando este nosso modesto trabalho, que tem por escopo principal sugerir a quem nos leu, que adquira e leia, com a certeza de que vai ficar esclarecido e maravilhado, as obras - entre muitas - que citamos mas com merecido destaque para "OS NEGROS EM PORTUGAL - UMA PRESENÇA SILENCIOSA" de autor brasileiro, editada apenas em Portugal, que deveria ser considerado clássico do Mundo Lusófono e obrigatoriamente adotado na disciplina de História de PORTUGAL do ensino médio, pelo menos.

E por que não nos cursos superiores de HISTÓRIA, de CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICAS, e de CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO dos países da comunidade de Língua Portuguesa?

Aqui fica a sugestão, honrosa para o BRASIL, aos Ministérios da Educação dos países da comunidade de língua portuguesa e ao Dr. Guilherme Zeverino do Instituto Português de Cooperação, uma vez que o assunto interessa também à CPLP.


Carlos Mário Alexandrino da Silva


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