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A NECESSIDADE
DUMA HOMENAGEM NACIONAL A BALTASAR LOPES
Nao ha' homens nem sociedades que possam viver sem memorias. Nao ha' situaçao mais triste que a dos amnésicos cortados do seu grupo e da sua tradiçao, registando-se ao mesmo tempo a existencia dum laço profundo entre a ma' memoria e a consciencia nacional. As sociedades multiplicam os sinais destinados a manter viva e actuante a memoria recorrendo a monumentos ou servindo-se dos livros e da escrita. Nas situaçoes coloniais verifica-se uma disfunçao que faz da memoria uma qualidade do colonisador e esvasia do seu conteudo ideologico e natural a memoria dos colonisados. As Independencias dos dominados arrastaram consigo os efeitos complementares: em primeiro lugar permitiram que se destruisse o excesso de memoria consagrada ao colonisador e segundo lugar obrigou o colonisado a considerar com rigor as marcas da sua propria historia valorisando os acontecimentos e as personagens. Deve-se dizer-se que esta tarefa ainda nao esta' concluida pois foi necessario fazer a revisao da historia e esta tarefa esbarrou constantemente com os monumentos deixados pelo colonisador. Cabo Verde dada a sua condiçao de colonia nao pode escapar a esta maneira de se considerar na historia do Atlantico e do Mundo. A colonisaçao pôs em evidencia as suas figuras maximas de marinheiros, descobridores, conquistadores, admnistradores e governadores, reduzindo desta forma o espaço que devia caber as figuras nacionais, camponeses, pescadores, emigrantes, intelectuais que contribuiram para a construcçao do espaço colectivo nacional. Esta reflexao é inspirada dum acontecimento a vir de cuja importancia é tal que exige que a analisemos imeditamente: trata-se do primeiro centenario do nascimento de Baltasar Lopes da Silva que exerceu no Arquipélago uma funçao directora fundamental, nao so em termos de criaçao literaria mas sobretudo em funçao das escolhas éticas ou se quizermos em termos da moral politica e social. Este primeiro centenario ainda nao mereceu uma evocaçao sistematica, so como ainda nao suscitou simplesmente um esboço de programa comemorativo. Ora estamos ja' em meados de 2006 e o tempo nao parece muito vasto para levar a cabo uma tarefa indispensavel que nao deve incluir somente as ilhas de Sao Nicolau e Sao Vicente. Convém sublinhar que nao se trata de manter Baltasar Lopes nos lugares onde nasceu ou exerceu a sua actividade pois a sua intervençao o situa num plano superior desde a Faculdade até à morte. Convém salientar a maneira como Nhô Baltas se empenhou em conhecer os valores culturais do Arquipélago que transparece na sua obra de investigaçao ou na obra de ficiconista ou de poeta. Se Fernando Pessoa possuia os seus heteronimos nao podemos esquecer o filologo Baltasar Lopes da Silva e o poeta Osvaldo Alcantara. Se uma homenagem se impôe hoje à todos os caboverdianos ela deve ser considerada em dois planos: o primeiro, respeita à biografia de Baltasar Lopes da Silva. Trata-se duma vida longa e complexa repleta de criaçao seja politica como poética e é por isso indispensavel que um investigador dos muitos que surgem actualmente em Cabo Verde se venha a ocupar-se duma biografia critica que permita apreciar o percurso intelectual e politico de um dos grandes intelectuais contemporaneos de Cabo Verde. Nao esqueçamos que Baltsar Lopes da Silva teve que se exilar para poder assegurar a sua formaçao universitaria uma vez que o aparelho escolar colonialista tinha recusado aos africanos em geral os beneficios da formaçao superior universitaria. Convém nao esquecer que Baltasar Lopes da Silva foi rudemente afastado do exercicio pedagogico da Universidade Classica de Lisboa em nome da branquisaçao necessaria da instituiçao. Digamos que se trocou um mal por um bem pois colocado nessa situaçao Baltasar Lopes da Silva se integrou no corpo docente do Liceu Gil Eanes em Cabo Verde onde contribuiu com Antonio Autrelio Gonçalves para a formaçao de jovens intelectuais que vieram a organisar a plataforma que permitiu a multiplicaçao dos criadores e das criaçoes. E por esta razao que esta homenagem nos parece indispensavel e deve alargar-se à totalidade do Arquipelago e a todas as comunidades caboverdianas emigradas, ja' que a intervençao de Baltasar Lopes esteve sempre para la' do local de nascimento ou de trabalho. Como sublinha Miguel Torga o local de Baltasar Lopes esta' marcado pela importancia do universal. O criador caboverdiano que conhecia as obras do atlantico nao ignorava a veemencia do canto das sereias. O seu espirito era tao poderoso e tao fluidico como as corrente maritimas. Falta-nos ainda hoje a analise da totalidade da sua obra assim como seria conveniente encarar a urgencia de reunir em volumes os artigos e ensaios dispersos em revistas e jornais ja que começou muito cedo a sua intervençao critica associado a outros caboverdianos como Julio Monteiro, aquem poderam nos anos trinta, mau grado a ditadura, propôr a dignificaçao continua do homem caboverdiano. As marcas centrais dessas operaçoes intelectuais podem-se encontrar na imprensa africana de Lisboa, por exemplo A Mocidade Africana e mais intensamente na collecçao Claridade, revista que serviu de arma de ataque, aquilo a que podemos chamar a consciencia colectiva caboverdiana. Ja' agora sublinha-se um lapso na organisaçao nas comemoraçoes do cinquentario da Claridade que deixou inéditas as muitas comunicaçoes entao apresentadas entre as quais a do proprio Baltasar Lopes. Trata-se duma tarefa indispensavel, se bem que atrazada, que fornecera aos caboverdianos a soma das reflexoes que a revista e os seus colaboradors mereceram entao. Nao custa nada sugerir que esta publicaçao seja ja publicada no ano do centenario de Baltasar Lopes e que ela seja rigorosa e sem lacunas. Luiz Silva |