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CCPD
- Processo de Descolonização: De:Augusto
Carvalho Foi Melo Antunes o teórico do Grupo dos Nove, opondo-se ao projecto inegemónico do PCP e tentando, depois contrariar, no plano internacional, a sua estratégia política. A direita colou-se-lhe, então, por razões de ocasião, uma parte da mesma direita que agora o ataca enquanto símbolo. E o PCP deixou de o atacar por razões opostas.
Como parece não assumir, por exemplo, Mário Soares que quisemos ouvir, mas não teve tempo para nos receber. Esperamos, entretanto, a oportunidade prometida. Pedimos, por isso, a Melo Antunes que nos desse a sua versão de como correram as coisas, que se pronunciasse sobre o livro do general António Spínola, que pensa do comportamento de Mário Soares, de então e de agora e quais as suas relações com o PCP. Melo Antunes falou longamente da sua experiência e revelou alguns episódios até agora pouco conhecidos e alguns mesmo inéditos, entre eles, o encontro em Amesterdão entre ele próprio, Almeida Santos e Óscar Monteiro da FRLIMO. Situa, também, o célebre texto dactilografado que tanta admiração causaria no major Casanova Ferreira, se entendermos ao que sobre o assunto disse o general Spínola. E
muito mais. A entrevista aí fica. Entrevista de um político-militar
que continua a gozar de vasta audiência em diversos sectores
do mundo africano. Uma entrevista que o EXPRESSO pensa fará
história. A que outrAs certamente se seguirão
A. de C. EXPRESSO O tenente-coronel Melo Antunes é um dos homens mais em foco no processo que levou à descolonização de Moçambique. Um dos mais em foco e um dos mais atacados. Atacado pela chamada direita e silenciado pela chamada esquerda. Foi atacado recentemente pelo general António de Spínola no livro País Sem Rumo e o próprio Mário Soares secretário geral do PS, parece ter-se solidarizado com as afirmações do ex-Governador da Guiné e primeiro Presidente da República a seguir ao 25 de Abril. Já passou muito tempo. Já vários livros foram publicados e o tenente-coronel Melo Antunes tem-se mantido silencioso. Como interpretar tal silêncio? Arrependimento ou prudência? MELO ANTUNES Sobre o processo de descolonização levado a cabo após o 25 de Abril muito se tem dito e escrito, em Portugal, em tais condições de emotividade ou buscando efeitos políticos, partidários ou sociais que quase sempre se tem adulterado a verdade histórica ao ponto de desfigurar quase por completo esse capítulo fundamental da nossa História que levou à independência de territórios durante séculos submetidos à dominação colonial portuguesa. O meu silêncio perante os constantes e, por vezes, inqualificáveis ataques de sectores bastante diferenciados da direita portuguesa ou de grupos sociais com estreitos interesses ligados à antiga exploração colonial (e que de um modo tão transparente, e frequentemente iníquo, exploram justos sentimentos de saudade e de desgosto de tantos que viveram nas colónias do seu honrado e penoso trabalho) o meu silêncio não significa, de modo algum, arrependimento ou prudência. O que penso é que a história da descolonizaçãosó poderá ser feita, em termos do mínimo rigor científico exigível, em condições de muito maior serenidade, numa atmosfera política muitíssimo mais distendida, quanto à hermenêutica dos acontecimentos puder ser realizada com a distanciação que permita uma visão mais lúcida e global. Até hoje, nesta matéria, não houve qualquer investigação histórica digna desse nome. Quase todos aqueles que sobre a descolonização têm escrito procuram atingir objectivos políticos conjunturais. E, consoante as modas ou oportunidades, assim se fazem ouvir mais ou menos, as vozes dos que por forma sistemática procuram destruir a acção dos que tentaram em condições extremamente difíceis, soluções simultaneamente patrióticas, pragmáticas e progressistas (no sentido de se enquadrarem no movimento universal de luta contra todas as formas de colonialismo) para o problema da autodeterminação e independência dos antigos territórios coloniais portugueses; dos que procuram, a todo o custo, alijar responsabilidades e desviar a atenção da opinião pública sobre um número muito restrito de bodes expiatórios (aos quais tenho a honra de pertencer), tentando simultaneamente aparecer como vítimas inocentes de cavilosas intrigas, mártires de não sei que tenebrosas conspirações, alvos ingénuos e virginais de horrendas e pérfidas traições; dos que ensaiam, enfim não se cansando jamais, jamais corando, das inúmeras contradições com que parecem apostados em pautar a sua quota de responsabilidade no processo histórico da descolonização, por razões de mero eleitoralismo umas vezes, por razões de conveniência política outras (quando os ventos parecem soprar favoravelmente no sentido da condenação global da descolonização), por razões enfim que, tendo a ver com o que disse antes, se resumem no fundo a isto: necessidade que alguns sentem de redourar o seu brazão, isto é, pintar de fresco uma imagem que, por motivos diversos está profundamente deteriorada na opinião pública.
Quanto à solidariedade manifestada por Mário Soares, direi por enquanto apenas que lamento desde já duas coisas: a primeira é que um homem que, em tantas ocasiões, antes e depois do 25 de Abri, manifestou ser possuidor de incontestável coragem política, se tenha obrigado a fazer o elogio do livro e da figura do general Spínola, conhecendo ele tão bem como eu, pelo menos, quais os verdadeiros projectos do general quanto à descolonização (e que o próprio Mário Soares, então, criticava, em nome dos princípios socialistas e da luta anticolonial); a segunda é que Mário Soares tenha chegado ao ponto de invocar o livro para cobrir a sua acção nas negociações do Alvor, invocando a autoridade do autor de País Sem Rumo para fazer a demonstração do seu discreto papel na descolonização de Angola, por um lado, e da sua relevante e patriótica intervenção nas negociações com a FRELIMO, por outro lado. Reflectindo
sobre esta questão, hesito em classificar esta, para mim mais
do que surpreendente, atitude de Mário Soares. A inviabilidade do projecto de Spínola EXP.
Que a descolonização deveria ter sido desta ou
daquela maneira ouve dizer-se e escrever-se com frequência.
Acha que poderia ter sido de maneira diferente? M.A.
Poderia, talvez, ter sido de maneira diferente. Inclusivamente,
poderia ter sido tentada de acordo com as ideias do general Spínola.
Simplesmente,
para que isso tivesse acontecido, teria sido necessário que
a própria revolução tivesse tido uma natureza
diferente. Quer isto dizer que o 25 de Abril se tivesse
limitado a um mero pronunciamento militar, a um simples
golpe de Estado que, derrubando o governo e algumas das
principais instituições do fascismo, levasse ao poder
o conjunto de generais, com Spínola à frente, interessado
em mudar no regime aquilo que permitisse a transferência efectiva
do poder de uma secção ou parcela da classe dominante
para outra secção (aspirando a certas formas de democratização
e modernização no regime, condição fundamental
para o pleno desenvolvimento dos seus projectos de capitalismo avançado)
se o 25 de Abril se tivesse resumido a isto tão
esquematicamente delineado, sem qualquer dúvida que Spínola
poderia ter beneficiado das condições políticas
necessárias para pôr em prática o seu projecto
descolonizador, já esboçado no seu livro Portugal
e o Futuro e que, no essencial, apontava para uma comunidade
de expressão lusíada, composta por uma federação
de Estados aos quais se reconhecia, em grau maior ou menor, o acesso
a certas formas de independência. Aconteceu, porém, o seguinte: primeiro, o projecto de Spínola vinha com um atraso de mais de 13 anos (admitindo, sem discutir, que antes de eclodirem as guerras tal projecto poderia ter sido posto em prática), não tendo em consideração o factor capital do desencadeamento das lutas armadas de libertação nacional em Angola, Moçambique e Guiné que fizeram mudar perfeitamente a natureza das relações políticas, sociais, culturais e humanas entre Portugal e as suas colónias; em segundo lugar, o golpe militar de 25 de Abril transformou-se em poucas horas numa autêntica revolução popular, com uma dinâmica interna que ninguém estaria em condições de prever e que condicionou de tal forma as decisões dos responsáveis políticos da época, nos meses que se seguiram ao 25 de Abril que bem podemos já hoje afirmar que o processo histórico da descolonização faz parte integrante do processo histórico da liquidação e, paralelamente, edificação, contraditória embora, de um novo estado democrático em Portugal. Digamos que o mesmo impulso revolucionário, gerado no seio de um povo oprimido e explorado durante perto de 50 anos, criou as condições políticas únicas e específicas que levaram, não só ao derrube das estruturas do fascismo e ao começo de um novo ciclo histórico, como, conduziram o poder político a abandonar uma postura ambígua perante o problema colonial e a reconhecer o direito dos povos à autodeterminação e independência (discurso do general Spínola de 27 de Julho de 1974 e Lei 7/74), abrindo-se a possibilidade de uma negociação até aí bloqueada; em terceiro lugar, levar por diante o projecto de Spínola que comportava a chamada consulta por referendo, contra o curso da história, as esperanças suscitadas em toda a comunidade internacional e sobretudo, contra a vontade nacional que se manifestava de forma inequívoca de mil maneiras, significava pura e simplesmente a continuação de guerra: os movimentos de libertação não aceitavam obviamente que a sua legitimidade, conquistada por via revolucionária e pela luta armada no campo de batalha, viesse a ser posta em causa através de um instrumento, não só de impossível aplicação prática mas sobretudo a realizar em territórios cujas populações continuavam enquadradas pela mesma administração colonial e com a presença, por toda a parte, de tropas portuguesas. O referendo era, portanto, uma utopia e uma utopia perigosa nas condições então existentes. Mas, ao contrário do que pretende Spínola, não foram as tropas portuguesas que, segundo ele, recusando-se a combater ou negando-se a cumprir mais qualquer missão, tornaram o seu tão acarinhado projecto impossível. O general Spínola, fiel ao seu mítico ideal de um exército colocado exteriormente e acima do povo no fundo imbuído dos ideais elitistas dos exércitos prussianos que nada têm a ver, nem nunca tiveram nada de comum com os exércitos nacionais de países como Portugal (mas isto é outra história que nos levaria muito mais longe) considera-se traído, não só por políticos, militares e pelo MFA, como também, e sobretudo, pelas Forças Armadas que não teriam garantido, no terreno, as condições necessárias, ao desenvolvimento da sua política. Ora traição só existe na verdade na sua imaginação exaltada, povoada de fantasmas de outras épocas e outras latitudes, obcecada por esquemas políticos rígidos (e que, de resto, nem no essencial eram originariamente da sua autoria ). O Exército, na generalidade, e salvo casos excepcionais que em todas as épocas e em semelhantes circunstâncias sempre se verificaram, portou-se com a dignidade, a coragem e espírito de missão que a situação exigia.
O que se passou, porém, é que as Forças Armadas
não podiam, por impossibilidade histórica, psicológica
e política ficar imunes ao grande movimento colectivo que transformava
Portugal. Pretender que o exército agisse contra o processo
de transformação que sacudia a Nação é
não entender, por preconceito ideológico ou má-fé,
(a menos que se trate de pura ignorância) que tinha sido o exército
a iniciar o processo revolucionário, libertando forças
sociais e políticas que identificando-se com o acto libertador,
não se mostravam dispostas a pactuar com os desígnios,
declarados ou ocultos, das forças e personalidades que pretendiam
controlar a revolução e canalizá-la a seu favor;
é não entender também que o Exército português
era, e é, mais do que nenhum outro da Europa, por razões
da história e cultura nacional, das características
específicas da nossa formação social e económica,
da tradição militar portuguesa, um exército de
povo, um exército no qual, mau grado as incidências elitistas,
os elementos de articulação ao povo são muito
fortes e determinantes, não sendo por isso de admirar que uma
revolução que tão profundamente abalou as estruturas
da sociedade portuguesa arrastasse consigo, esmagadoramente, o Exército.
Isto
não explica, nem desculpa, erros capitais cometidos em Portugal
por certos sectores das Forças Armadas e certos grupos políticos
anarquizantes. Quando, por exemplo, se gritava em comícios
e em manifestações de rua, palavras de ordem tão
irresponsáveis e imbecis como por exemplo nem mais um
soldado para as colónias, pretendia-se não só
criar, internamente, uma situação de caos político
que favorecesse a implantação de um projecto esquerdista,
como conduzir à desmoralização completa das tropas
cuja principal missão era, nos territórios a descolonizar,
garantir uma transição pacífica para a independência,
o que supunha um empenhamento activo no cumprimento rigoroso dos acordos
com os movimentos de libertação, uma defesa intransigente
de pessoas e bens, a oposição frontal às tentativas
oportunistas de personalidades e grupos políticos fantoches
de fazer reverter o processo em seu favor. Impunha-se ainda uma coordenação
fraterna com as autoridades militares dos novos países por
forma a facilitar-lhes a tarefa de controlo e defesa dos territórios.
Nem
tudo, neste como noutros capítulos da descolonização,
se passou na prática como se pretendia. Mas nunca ao Exército,
nem à sua honra se podem assacar as culpas principais, como
ia a dizer vergonhosamente mas, no fundo , por completa incapacidade
de compreender o faz o general Spínola no seu livro.
Qual o papel do Dr. Mário Soares EXP.
Segundo o general Spínola no livro supracitado os primeiros
contactos com a FRELIMO foram realizados pelo Dr. Mário Soares
(ministro dos negócios estrangeiros), pelo Dr. Manuel Sá
Machado do mesmo Ministério, pelo major Otelo Saraiva de Carvalho
na qualidade de representante do MFA central e pelo tenente-coronel
Nuno Lousada, como representante do MFA. Resulta deste texto e de outros de semelhante teor que Mário Soares não estava de acordo com a linha do MFA para a descolonização. Qual seria então o pensamento e a actuação do Dr. Mário Soares?
Teve com ele divergências acerca da forma de conduzir os acontecimentos?
Mário Soares vem afirmando que é fundamentalmente certo
o que Spínola escreve. M. A. Antes de responder à sua pergunta deixe-me dizer-lhe em jeito de questão prévia fundamental relativa a todas as questões que quiser pôr-me que por agora apenas revelarei dos factos que com ela possam estar relacionados aquilo que julgue não ser, ainda hoje, do domínio reservado e confidencial dos negócios de Estado.
Eu sei que a sua pergunta tem a ver com afirmações contidas
num livro em que tal critério não foi observado. Tal
não me levará, porém, a contrariar uma prática
legítima e universalmente respeitada e que, em nome de razões
opostas, tem sido, com grande leviandade, posta em causa entre nós.
As primeiras negociações com a FRELIMO iniciaram-se, efectivamente, em Lusaka, nos primeiros dias de Junho de 1974, sendo a delegação portuguesa chefiada por Mário Soares. O encontro e as negociações com a FRELIMO abrem-se com o célebre abraço de Mário Soares a Samora Machel, rompendo todas as regras do protocolo, como então foi dito e repetido. Este gesto era revelador (pelo menos assim foi interpretado na altura por mim próprio e por muitos sectores progressistas, militares e civis) de um espírito de generosa abertura e fraternidade, de uma franca disposição de ultrapassar com rapidez as enormes dificuldades de um processo naturalmente completo como era o da descolonização de Moçambique. A capacidade de negociação de Mário Soares era, no entanto, muito limitada. Na prática, o seu mandato consistia em tentar obter da FRELIMO um rápido, se possível imediato, cessar fogo, sem poder, em troca, conceder à FRELIMO mais do que vagas promessas de respeito pelo princípio da autodeterminação. Dir-se-ia
que Spínola, ao enviar Mário Soares a Lusaka, não
tinha feito mais de que tentar ganhar tempo com uma manobra dilatória
que não poderia deixar de ser interpretada pelo FRELIMO, com
alguma razoabilidade e sem qualquer proveito para Portugal, como a
um compasso de espera necessário à organização
de formas políticas fantoches em Moçambique que aparecessem
oportunamente no tabuleiro a reclamar representatividade no diálogo
com Portugal; e, simultaneamente, ao enfraquecimento do ardor combativo
das forças guerrilheiras, naturalmente desejosas também
de uma paz rápida, mas justa. Desta
reunião de Lusaka nada resultou de positivo, a não ser
um conhecimento mais exacto das posições da FRELIMO
e a promessa da delegação portuguesa de voltar a contactar
depois de estudo ponderado da situação, em Portugal.
E
é importante referir aqui que, após este encontro em
Lusaka, a FRELIMO intensifica o esforço de luta armada em diversas
zonas de Moçambique, provocando uma certa desorientação
em meios políticos e militares portugueses que com dificuldade
entendiam que esta era a única resposta possível da
FRELIMO ao que ela interpretava ser a manobra de Spínola e
o trunfo maior que podia jogar para manter o espaço de negociação
em ulteriores contactos. As
nossas tropas, desejosas de alcançar uma paz honrosa limitavam-se
a responder aos ataques da FRELIMO, a tentar garantir a liberdade
de circulação nas vias de comunicação
e a proteger as populações civis, abstendo-se de operações
ofensivas, em obediência de resto a instruções
superiores oriundas de Lisboa, transmitidas pelo general Costa Gomes,
com a plena concordância do general Spínola. Das posições defendidas por Mário Soares nessa época, não posso concluir que defendesse um conceito de descolonização diferente do que prevalecia nas estruturas dirigentes do MFA. O que aconteceu em concreto, foi que Mário Soares não tinha mandato para ir mais longe nas conversações com a FRELIMO. Mas é inegável que as consequências políticas deste encontro de Lusaka são fundamentais para o processo que internamente se desenvolveu em Portugal, até ao discurso de Spínola de 27 de Julho de 1974 e à lei 7/74, de 26 de Julho. Efectivamente
o que a delegação trouxe de Lusaka foi a ideia mestra
que o prosseguimento das conversações com a FRELIMO
exigia de Portugal três coisas: o reconhecimento do direito
do povo moçambicano à independência completa e
total; a aceitação do princípio da transferência
da soberania exercida por Portugal às instituições
representativas do povo moçambicano, isto é, à
FRELIMO; o reconhecimento da FRELIMO como legítimo representante
do povo moçambicano. Estas eram, na realidade, as condições
postas à delegação portuguesa para o prosseguimento
das negociações. Foi, por isso, nos quase dois meses que se seguiram ao encontro de 5 a 6 de Junho em Lusaka, o debate aceso em torno destas questões fulcrais, a nível de várias instâncias do poder que, a par dos acontecimentos registados em Portugal e nas colónias, determinando uma aceleração inusitada do processo histórico, acabou por conduzir à Lei 7/74 e ao discurso de 27 de Julho do general Spínola (que curiosamente não figura entre os documentos publicados em anexo ao País sem Rumo ). É
durante este período que as mais acesas controvérsias
têm lugar, acabando Spínola por aceitar a prevalência
das teses do MFA sobre as suas próprias teses. E
não me recordo de ter visto nessa altura M. Soares manifestar-se
em oposição ao MFA. Spínola queria um protocolo secreto com a FRELIMO EXP.
O general Spínola acusa Melo Antunes, então ministro
sem Pasta, de se haver deslocado a Dar-es-Salam sem o seu conhecimento
e sem que tal deslocação tivesse sido concertada com
os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Coordenação
Interterritorial. Acrescenta que o propósito de Melo Antunes
era estabelecer um plano de entrega de Moçambique à
FRELIMO. Foi
assim que se passaram os factos? M.A.
É inteiramente falsa, para começar, a afirmação
que me desloquei a Dar-es-Salam sem o conhecimento do então
Presidente da República. As
acusações que Spínola me faz constituem uma montagem
extraordinariamente grosseira de alguns factos reais, o primeiro dos
quais é a minha deslocação a Dar-es-Salam em
fins de Julho de 1974. Procurarei
descrever o mais sinteticamente possível o que então
se passou. Depois do encontro de Lusaka a que já fizemos larga referência e no mais aceso do debate travado em torno dos princípios que haveriam de regular o prosseguimento das negociações com a FRELIMO (e que obviamente iriam repercutir-se nas negociações para a independência de Angola), desloquei-me com Almeida Santos e a convite deste, a Amesterdão, para um encontro que permaneceu secreto com Óscar Monteiro, membro proeminente da FRELIMO. Esta deslocação tinha em vista, em face do relativo malogro das conversações de Lusaka, assentar com a FRELIMO a metodologia mais conveniente para a manutenção dos contactos, tendo-se chegado à conclusão que deveriam evitar-se mais encontros formais do tipo do encontro de Lusaka, enquanto não se tivesse avançado na remoção dos obstáculos que permaneciam após aquele encontro. Foi, assim, reconhecida a conveniência de, logo que a parte portuguesa estivesse em condições de avançar com propostas concretas, sobre as quais se pudesse estabelecer um diálogo positivo, se combinaria novo encontro secreto, a fim de evitar que se dele não resultasse nada de concreto, a publicidade dada às posições de ambas as partes limitasse de maneira fatal a sua capacidade de negociação, comprometendo seriamente a continuação do diálogo. Deste encontro de Amesterdão foi dado conhecimento completo ao general Spínola.
E quando, decidido o discurso de 27 de Julho e aprovada a lei 7/74
se verificou estarem reunidas as condições políticas
mínimas para o prosseguimento do diálogo com a FRELIMO,
foi formalmente deliberada a minha ida a Dar-es-Salam, com plena concordância
do general Spínola, general Costa Gomes (que na mesma altura
fez a proposta da minha nomeação para Alto-Comissário
em Moçambique, proposta que foi aceite) e primeiro-ministro
Vasco Gonçalves e, pelo menos, o conhecimento e acordo do Dr.
Almeida Santos e Dr. Mário Soares. Propus, então, que me acompanhasse na missão o comandante Almeida e Costa, representante em Lisboa do MFA de Moçambique e que nessa qualidade seguia atentamente o evoluir da situação, proposta que foi aceite. Antes de partir tive uma conversa com o general Spínola durante a qual foram acordados os termos em que deveria, nesta fase preliminar, negociar com a representação da FRELIMO. Assim e de harmonia com o discurso de 27 de Julho e a lei 7/74, deveríamos considerar como adquiridos e, portanto, aceites por Portugal, dois dos três princípios já referidos: o reconhecimento do direito do povo de Moçambique à independência; o princípio da transferência de poderes para a FRELIMO. Quanto
ao reconhecimento da FRELIMO, o general Spínola adiantou a
ideia da assinatura de um protocolo secreto no qual aquele movimento
seria reconhecido como representante legítimo do povo de Moçambique,
sem prejuízo das negociações que se seguiram
com a FRELIMO (erigida, assim, e de facto, em interlocutor único)
com vista à transferência de poderes. A
insistência do general Spínola na questão do segredo
do protocolo reconhecendo a FRELIMO baseava-se nos seguintes argumentos:
impedir a África do Sul e a Rodésia de contestarem,
no plano internacional , a legitimidade de tal representatividade,
tirando partido de preconceitos democráticos burgueses
do Ocidente, o que nos criaria dificuldades na Europa; impedir a África
do Sul e a Rodésia de utilizarem o pretexto formal da ilegitimidade
para intervirem militarmente em Moçambique, tentando concretizar
o velho sonho colonialista de cortar Moçambique em dois pela
Zambézia provavelmente; e retirar às minorias racistas
e colonialistas de Moçambique, bem como aos sectores mais reaccionários
em Portugal, o argumento da traição pela
rendição e entrega vergonhosa, o que poderia
levantar em Moçambique sérios problemas de ordem pública
e em Portugal graves dificuldades políticas. Foi
com este mandato precioso que parti com o comandante Almeida e Costa
para Dar-es-Salam. Nesta cidade decorreram, entre 30/7/74 e 2/2/74,
as difíceis conversações entre a delegação
portuguesa e a delegação da FRELIMO que conduziram à
elaboração de um documento contendo os conceitos básicos
e as linhas mestras do acordo a negociar, formalmente, caso Portugal
concordasse em que este documento era uma base de partida aceitável
para a continuação do diálogo. Uma vez que este
encontro de Dar-es-Salam havia permanecido secreto, mantinha-se a
margem de negociação de ambas as partes, caso Portugal
viesse a considerar inaceitável a posição de
partida de Dar-es-Salam. Regressado a Portugal, dirigi-me imediatamente com Almeida Santos, de helicóptero, ao Buçaco, onde se encontrava o Presidente da República. Entreguei o documento ao general e expliquei-lhe detalhadamente a forma como tinham corrido as conversações e as principais dificuldades encontradas e que, no fundamental, eram as seguintes: a questão do não reconhecimento público da FRELIMO; e, quanto ao mecanismo de transferência de poderes, o problema da composição do Governo de transição. O Presidente da República não reagiu desfavoravelmente ao documento que lhe foi apresentado, nem fez qualquer comentário negativo às explicações suplementares que lhe forneci. Mais.
O Presidente da República dá o seu pleno acordo para
que se façam os preparativos necessários à constituição
de uma delegação portuguesa que, no mais curto prazo
de tempo, se deslocaria a Dar-es-Salam, a fim de prosseguir, agora
a céu aberto e, portanto, formalmente, as negociações
com a FRELIMO, partindo das bases provisórias contidas no documento
de que lhe fiz entrega. É
esse documento que o general chama agora hipócrita e despudoradamente
um plano de entrega de Moçambique à FRELIMO. Por aqui
se pode avaliar da seriedade política, intelectual e moral
do autor do País sem Rumo. Discutido,
pois, o documento, já no âmbito da Comissão Nacional
de Descolonização, constitui-se a delegação
portuguesa que, em 15 e 16 de Agosto seguintes, continua em Dar-es-Salam
a discussão com a FRELIMO, procurando então formalizar
os seguintes objectivos, já por mim defendidos e pelo com.
Almeida e Costa no 1º encontro de Dar-es-Salam: obter uma composição
do Governo de transição e uma definição
de competências (do Alto-Comissário e do Governo) que
evitasse a Portugal ficar em posição desvantajosa e
desprestigiante no período de transição: obter
a máxima garantia para os interesses legítimos dos portugueses
residentes em Moçambique, sobretudo para aqueles que lá
desejassem continuar a viver após a independência: lançar
as bases políticas e jurídicas das futuras relações
Portugal-Moçambique, no quadro de uma cooperação
marcada pela fraternidade, o respeito pelos interesses mútuos,
a igualdade, a não ingerência nos assuntos internos de
cada país, o reconhecimento do factor linguístico como
laço permanente e privilegiado das relações entre
os dois países e elemento de importância capital no incremento
futuro da cooperação cultural, técnica e científica
e económica; os problemas decorrentes do cessar-fogo e a cooperação
militar. Foi
com este espírito que participei nesta 2ª reunião
de Dar-es-Salam, procurando o desenvolvimento de princípios
já adquiridos na 1ª reunião, e constantes do documento
já referido. Almeida
Santos tem nesta segunda reunião uma intervenção
muito importante, a dois níveis: dando forma jurídica
ao acordo, à medida que se chegava a entendimento sobre cada
questão concreta; contribuindo largamente para a criação
de uma atmosfera distendida e propícia ao diálogo. Mário
Soares participou largamente nos debates, inteiramente integrado no
espírito do documento que serviu de base a esta 2ª reunião
de Dar-es-Salam. Reportando-me ao livro de Spínola e na sequência desta mesma questão, é verdade que tive um encontro com Nyerere a pedido deste após a minha chegada a Dar-es-Salam. Considerei natural o pedido, dado a forma como tinham decorrido os nossos anteriores contactos. Nyerere, porém, não tentou interferir nas negociações. Naturalmente que estava vivamente interessado em acompanhá-las, mas nunca fez qualquer pressão inaceitável. Recomendou sempre compreensão e espírito de abertura, chamando a atenção da importância que aquelas conversações tinham para a África e para o Mundo, bem como para o processo geral de libertação dos povos colonizados. O seu interesse em falar comigo resultava também da necessidade de confrontar ideias sobre questões de política geral relativas à África (e dos problemas decorrentes das relações África-Europa); de questões ligadas ao desenvolvimento dos países pobres de África (e a Tanzânia é um deles), de questões sobre a paz e segurança internacionais. Dir-se-á que eram problemas da competência do ministro dos Negócios Estrangeiros. Inteiramente de acordo. Simplesmente, Nyerere não me ouviu enquanto representante de Portugal nos encontros que tivemos. Falámos, sim, como dois cidadãos com idênticas e públicas preocupações e, em muitos aspectos, com ópticas semelhantes sobre vários problemas concretos respeitantes à ordem internacional existente. Quando
muito, o que Nyerere via em mim seria o representante de uma revolução
que tinha tido um enorme impacto em todo o mundo e que se enchia de
prestígio à medida que se tornava clara a boa-fé
e a sinceridade com que se procedia à democratização
e descolonização. Não
houve, portanto, ultrapassagem de ninguém. E se alguém
tivesse, nessa altura, considerado que a minha atitude era menos correcta
e mais límpida, deveria ter-me dito e discutido comigo, pois
sempre foi traço característico dos meus métodos
de trabalho, a transparência de atitudes e a lealdade nas relações.
Pena é que aqueles que fundamentalmente ou não, têm
motivos de queixa ou de crítica, não o manifestem no
tempo e no lugar próprios, preferindo, ao que parece, a insinuação
ou a denúncia como meios privilegiados de, conjuntural e oportunisticamente,
fazer realçar os seus próprios méritos e virtudes.
Foi
assim que procederam, sejam eles quem forem e a dar-se credibilidade
ao que diz o general Spínola, aqueles que depois do regresso
de Dar-es-Salam informaram o Presidente da República
dos meus encontros com Nyerere e dos meus supostos contactos com a
FRELIMO sem conhecimento dos outros membros da delegação
portuguesa. Quanto a esta última acusação, de extrema gravidade pelas suspeitas que levanta (e que, de resto são claramente expressas poucas linhas adiante no livro de Spínola), ela é inteiramente descabida e falsa. Não houve encontros formais entre mim e a delegação da FRELIMO, antes das conversações oficiais.
Encontrei elementos da delegação da FRELIMO com quem
conversei, nomeadamente no hotel onde nos instalámos, sem discutir
nenhum aspecto substancial das negociações em curso.
Trocaram-se impressões muito gerais, tal como estou convencido
que aconteceu aos outros membros da delegação portuguesa,
sem que tal me parecesse estranho ou suspeito. Só posso dizer,
para finalizar, que toda essa construção
é inteiramente revoltante e infamante. O famoso texto dactilografado e a intervenção de Casanova Ferreira EXP.
Ainda no mesmo livro e como pano de fundo de aliado da FRELIMO
contra os interesses portugueses, António de Spínola
atribui a Melo Antunes a entrega de um texto dactilografado antes
da partida para a Zâmbia em 4 de Setembro de 1974. Desse texto
constariam as cláusulas do acordo com a FRELIMO, o que teria
levado o major Casanova Ferreira a dizer a Mário Soares e Almeida
Santos que, perante tais condições não valeria
a pena irem a Lusaka. Qual
o sentido deste gesto se é que existiu? M.A. O texto dactilografado a que se refere o general era, pura e simplesmente e no fundamental o projecto de acordo que havia sido elaborado em Dar-es-Salam e que constituía a base das negociações finais de Lusaka, visto não serem previsíveis grandes alterações ao que já havia sido negociado. Esse
texto foi discutido em Lisboa com o general Spínola, no âmbito
da Comissão Nacional de Descolonização e, depois
de aprovado no essencial, dele foi necessário fazer o número
de cópias suficientes para todos os membros da delegação
portuguesa, nomeadamente para o major Casanova Ferreira que à
última hora, e sem qualquer razão visível, por
designação expressa de Spínola, integraria a
delegação portuguesa. Do documento, já discutido e aprovado, foram tiradas cópias apenas na véspera do embarque da delegação, por razões que têm apenas a ver com a sequência dos acontecimentos e a falta material de tempo para proceder doutra maneira. Daí a sua distribuição no aeroporto. Mas o importante é que os membros activos da delegação tinham pleno conhecimento dele, uma vez que era o resultado do seu próprio trabalho. Se o major Casanova Ferreira produziu o comentário a que se refere, isso só evidencia o carácter anómalo da sua presença na delegação e o desconhecimento da história de todas as conversações. Se lhe foi respondido como se diz no livro que apesar de tudo iriam modificar as condições expressas no referido texto, é uma vez mais lamentável porque era perfeitamente sabido que os problemas de fundo estavam discutidos e aceites as condições essenciais do acordo, se bem que alguns pormenores, nomeadamente ao nível da linguagem e, de qualquer modo, relativamente secundários, poderiam ser melhorados.
Em todo o caso, o que em Lusaka iria ser discutido de importante já
não era o texto final do acordo de cessar-fogo, cujas cláusulas
eram fundamentais para o enquadramento político-militar e jurídico
da fase de transição. Foi,
efectivamente, o que veio a passar-se, não com o significativo
silêncio do major Melo Antunes e do comandante Vítor
Crespo, mas sim com a sua participação activa
num honroso acordo. Desconheço
se os dois ministros a que se faz referência no
livro teriam do general Spínola prescrições
(para reproduzir o pitoresco termo que o autor utiliza) especiais
a cumprir. E não me dei conta de nenhum comportamento particularmente
notável e que mereça, passados estes anos, uma tão
singular e espectacular referência a Mário Soares e Almeida
Santos pela forma como se bateram. Que eu saiba não
houve heróis. E ainda mais ignorava que alguém
se julgasse merecedor dos elogios do general Spínola no contexto
das conversações de Lusaka. Seria útil que o Secretário Geral do PS se explicasse em definitivo EXP. Acompanhámos de perto os Acordos do Alvor e pareceu-nos na altura que Mário Soares havia desempenhado um papel preponderante, embora, o MFA não ficasse em segundo plano.
No entanto, recentes declarações dão-nos a entender
o contrário, como se o PS se envergonhasse da descolonização
(a afirmação é minha). Por uma questão
de fidelidade à História que será escrita gostava
que se referisse ao papel então desempenhado pelo Dr. Mário
Soares. M.A. Em primeiro lugar desejaria esclarecer o seguinte. Mantenho, de há muito, com Mário Soares boas relações pessoais explicáveis por um respeito e consideração que suponho recíprocos. A qualidade das relações pessoais não tem, porém, nada a ver com a possibilidade de, em muitos campos, se poder estar em desacordo, manifestável até com recurso a alguma veemência quando tal for justo e necessário. Tal não envolve que deixe, entretanto, de ter em mente, a necessidade de controlar a emoção naturalmente decorrente de atitudes tão injustas quanto inesperadas, de tal modo que o que é apenas reposição de factos e emissão de juízos críticos não se veja reconvertido como vai sendo moda na nossa terra em arma de desbragado aviltamento de pessoas, das posições que detém, das missões que servem ou serviram. Por
mim não desejo prestar esse serviço aos diversos peritos
e agentes da maledicência e do mexerico nacionais; mas também
não se me peça que em nome dos princípios
esqueça o que, à absoluta revelia deles, foi escrito,
dito, insinuado ou consentido, principalmente quando se trata de homens
com pesadas responsabilidades políticas. Nesta
perspectiva, encaremos a questão que me põe. Sempre
considerei até recentes declarações do
visado que a si próprio atribui uma discreta actuação
que o papel de Mário Soares nos acordos do Alvor teria
sido importante. Ele não chefiava a delegação
portuguesa mas teve, na qualidade de ministro dos Negócios
Estrangeiro, não só à mesa das negociações
como nas conversações de corredor, uma participação
activa e cujo peso específico me parecia indiscutível.
Ora,
em face das campanhas em curso contra a descolonização
e reagindo a declarações de Savimbi, ou a ele atribuídas,
na sequência de um encontro daquele dirigente da UNITA com personalidades
portuguesas confessadamente envolvidas em intrigantes e equívocas
diligências políticas contra a República Popular
de Angola e o seu Governo e que tão gravemente prejudicam o
interesse nacional, é, no mínimo, estranho que Mário
Soares procure defender-se, e tão debilmente, ao reservar-se
um papel discreto nas negociações do Alvor embora acrescentando
que sempre pautou a sua actividade pela defesa dos interesses dos
portugueses, etc. (cito de cor). O
que, porém considero mais grave é que alguém
se reclame da autoridade de Spínola, ao referir
País sem Rumo como um livro que fala por
si. As apreciações laudatórias que Spínola faz de Mário Soares são inseparáveis das condenações que o autor do livro faz de outras personagens, incluindo eu próprio. Donde terá forçosamente de se concluir que M. Soares está de acordo não só com os elogios que Spínola lhe tece (o que seria o menos), mas, fundamentalmente, com a interpretação que Spínola faz dos acontecimentos e com a condenação que o mesmo faz recair sobre os outros intervenientes nos mesmos acontecimentos. E não basta, para o desmentir, uma simples frase de conteúdo abstracto, em que afirma estar em frontal desacordo com apreciações de acontecimentos e pessoas feitas pelo general. É uma posição, a meu ver contraditória com as posições definidas durante o próprio processo de descolonização, em que, como ministro dos Negócios Estrangeiros, acabou por defender os pontos de vista e as orientações que vieram a prevalecer únicos de resto que tinham audiência no plano internacional e ele tinha consciência disso. E esta atitude de M. Soares traduziu-se não só nas posições assumidas como ministro como também nas inúmeras ocasiões em que claramente entendeu dever manifestar o seu apoio e encorajamento à luta política travada pelo MFA, nomeadamente no plano da descolonização. Luta que, como se sabe e me parece ter ficado bem saliente no decorrer desta entrevista, se travou em grande parte contra Spínola e as suas concepções.
Concepções por um lado ultrapassadas e inexequíveis,
por outro lado revelando uma ideia de história, porventura
sinceramente assumida, mas que tentava reproduzir, em novos moldes,
o sistema de denominação colonial e imperial. Em
face destas contradições, seria extremamente útil
que o secretário-geral do Partido Socialista Português
se explicasse, em definitivo, perante o fenómeno histórico
das lutas de libertação dos povos submetidos ao domínio
colonial. Saberíamos o alcance que para ele tem o fenómeno
do acesso à independência das antigas colónias
portuguesas e o fim do ciclo do império na história
pátria; saberíamos como se define perante os cálculos
políticos da direita portuguesa que cada vez mais ferozmente
se lança contra a descolonização e os seus principais
responsáveis; saberíamos, enfim, se concorda ou não
com Spínola nos seus injustos e levianos ataques às
Forças Armadas Portuguesas (arvorando-se, ao mesmo tempo, em
defensor das forças políticas que, em seu
entender, não seriam senão as vítimas inocentes
dos desvarios revolucionários do 25 de Abril).
E
é tanto mais importante saber o que pensam os responsáveis
do Partido Socialista sobre estas questões. Quanto à
política da Internacional Socialista é avaliada em Portugal
e pelos portugueses em geral (assim como em boa parte de África,
sobretudo na de expressão portuguesa) mais pelas
atitudes e o discurso político dos responsáveis portugueses
do que pelo que faz ou deixa de fazer o Sr. Willy Brandt, por exemplo.
Uma
última observação. Se o livro de Spínola
(talvez malgré lui, mas sem sombra de dúvida
obedecendo às intenções dos que o estimularam
e lhe guiaram a mão
) constituiu, até certo ponto,
uma luz verde para que a ofensiva contra a descolonização
começasse em grande estilo e envolvendo até uma inteligentzia
pouco suspeita à primeira vista, de reaccionarismo (vide o
triste artigo de António José Saraiva no Diário
de Notícias e o delirante editorial que se lhe seguiu
n`A Capital de Francisco de Sousa Tavares), foram as posições
políticas, por acção ou abstenção,
de alguns políticos de esquerda, que autorizaram
a ofensiva e forneceram a criação de uma atmosfera geral
de intoxicação e desorientação propícia
à aceitação das teses mais retrógradas
e perigosas para o próprio desenvolvimento dos ideais democráticos
e progressistas em Portugal. Foi diminuta a participação do PC no processo de descolonização
EXP. Melo Antunes é acusado pela direita de se haver
conluiado com o Partido Comunista Português, para aquilo que
chamam a entrega do Ultramar. Qual,
na realidade o papel do Partido Comunista no processo da descolonização?
M.A.
O que teria sido o conluio entre mim e o PCP está
bem patente na história do período mais agudo da revolução
portuguesa, o Verão de 1975, e o papel que nesse período
desempenhei. Não
se perdoa, nem à esquerda nem à direita, a minha independência
política e a coerência que procurei imprimir, desde o
princípio, a toda a minha actividade política. Sei disso
muito bem, mas não serão as incompreensões (
e muito menos os ataques, as calúnias ou as intrigas) que me
farão desviar um milímetro da minha firme determinação
de lutar pelas minhas ideias com total independência de juízo,
sentido crítico, coerência política e a constante
preocupação de não perder a dimensão ética
de toda a acção humana. Sei,
também, que muitas das minhas ideias (todas elas de resto)
são discutíveis e passíveis de crítica
e estive sempre (como estarei sempre) aberto ao diálogo livre
e democrático. Sou antidogmático e anti-sectário
por natureza e convicção e por isso susceptível
de evoluir. Mas só aceitarei a evolução num quadro
de debate democrático e não de um clima de violência
verbal ou física, numa atmosfera social e política inquinada
pelas manipulações demolidoras de personalidades e as
campanhas deformadoras da realidade. Vem
tudo isto a propósito da pergunta que me fez. E
vem a propósito lembrar que a direita, fingindo
precisamente ignorar o papel que tive na luta contra as tentativas
de hegemonização do processo revolucionário pelo
PCP e forças militares e civis seus aliados, grita em altos
bravos desde a noite de 26 de Novembro que o 25 de Novembro
não foi até ao fim, em grande medida pela defesa
que fiz do Partido Comunista, essa noite, perante as câmaras
da Televisão, no próprio momento em que a tal direita
julgava chegado o momento da caça às bruxas.
É
verdade que ajudei a impedir a caça às bruxas;
é verdade que intervim em defesa da democracia; é verdade
que repetiria hoje, sem hesitar, o gesto dessa noite, fosse qual fosse
o preço a pagar; é verdade que penso que os comunistas
portugueses fazem parte de pleno direito da sociedade política
portuguesa e que a liquidação do PCP corresponderia
à liquidação da democracia em Portugal. Dito
isto, nada autoriza pensar-se numa qualquer possível identificação
minha com o PCP, incluindo o projecto descolonizador. Divergimos profundamente
em aspectos ideológicos fundamentais, divergimos totalmente
quanto ao projecto de sociedade para Portugal, divergimos em aspectos
essenciais da estratégia das relações internacionais
e, portanto, quanto à política externa portuguesa.(E
sobre este ponto, se não me explico mais detalhadamente, é
porque, como é óbvio, me afastaria completamente do
objecto principal desta entrevista). Quanto à descolonização, é preciso reconhecer, antes de mais nada, que o PCP foi, das forças de resistência contra a ditadura fascista, a que mais longa e consequentemente se empenhou na luta anticolonial, tendo contribuído decisivamente, antes de 25 de Abril, para a criação de uma consciência de massas contra a guerra e o colonialismo.
(É certo que o Partido Socialista também lutou na mesma
linha mas, como se sabe, o PS é de criação muito
recente embora muitas das personalidades fundadoras militassem há
muito na resistência antifascista e participassem activamente
na luta anticolonial. É entre outros, o caso de Mário
Soares). Contudo, a participação visível do PCP no processo de descolonização foi diminuta. Não aparecem militantes seus directamente envolvidos nas negociações com os diferentes movimentos de libertação. Não estavam representados na Comissão Nacional de Descolonização. Nada
se conhece, publicamente, dos contactos que certamente tiveram com
responsáveis dos movimentos de independência; nem há
provas bastantes, até este momento, da sua identificação
total com a estratégia africana de inspiração
soviética. Sem
prejuízo da história que, um dia, se fará, liberta
de preconceitos, de interesses pessoais ou de grupos e de paixões
alienantes, tenho para mim que o PCP sempre preferiu na descolonização,
métodos indirectos de pressão, formas subtis de influenciar
os centros de decisão, evitando a todo o custo sujar
as mãos. Há,
no entanto, pelo menos quanto a Angola, algumas razões que
me levam a pensar que o PCP tenha influenciado de maneira decisiva
centros importantes de decisão ao nível do MFA. No final
do IV Governo Provisório, em meados de Julho de 1975, quando
me desloquei a Angola no mais aceso da luta entre os movimentos, e
Luanda se encontrava dominada pelo MPLA e defendida militarmente por
forças portuguesas contra uma iminente ofensiva da FNLA apoiada
por forças regulares zairenses (depois de ordens expressas
minhas nesse sentido), defendi a tese, tanto em Angola como depois
em Lisboa que os acordos do Alvor tinham sido completamente ultrapassados
pela realidade e que Portugal os deveria denunciar, abandonar a tese
da neutralidade activa e assumir corajosamente e claramente
o apoio ao MPLA com ou, sem ligação à UNITA,
tese que se justificaria naquela altura pelo relativo neutralismo
deste movimento nas violentas confrontações entre o
MPLA e a FNLA e pela imperiosa necessidade prática de isolar
a FNLA, movimento que aparecia cada vez mais claramente a tentar converter
Angola num satélite do Zaire, submetendo-a ao imperialismo.
O MPLA emergindo como o movimento que mais legitimamente representava os verdadeiros interesses do povo angolano e o que visivelmente dispunha de maior apoio nas camadas mais conscientes da população, era a solução que pragmaticamente melhor correspondia à situação real e aquela que daria garantias, a meu ver sólidas, de defesa dos portugueses instalados em Angola e dos seus interesses legítimos e evitaria a debandada geral. Teria como contrapartida a continuação do empenhamento militar português a fundo, de acordo com o MPLA. Mas era possível que, nestas circunstâncias, e com a negociação de novos acordos, se evitassem ingerências de países estrangeiros, isto é, a intervenção militar da República da África do Sul e o consequente aparecimento de cubanos e soviéticos (embora fosse de admitir a intervenção do Zaire). Ora, é neste momento que senti, como nunca, a oposição de sectores progressistas do MFA à tese por mim defendida e, paralelamente, uma estranha indiferença do PCP (que tinha pelo menos, um óbvio significado de assentimento). A tese esquerdista da impossibilidade de exigir dos militares um esforço suplementar em Angola generaliza-se e a argumentação entrincheira-se obstinadamente na estafada doutrina da neutralidade activa, sem atender às mudanças operadas na prática. Note-se uma vez mais, que não foram as Forças Armadas que se recusaram a combater.
O seu espírito de missão e o seu patriotismo ficaram
bem patenteados quando aceitaram, sem hesitar, a missão por
mim imposta de defesa de Luanda a todo o custo quando isso significava,
objectivamente uma aliança com o MPLA. Foram
as indecisões políticas de Lisboa a incapacidade do
poder político em definir a única via correcta para
a independência de Angola que desmoralizou as Forças
Armadas e as impediu de actuar até final como seria legítimo
esperar que actuassem. A recusa em dar o golpe de rins absolutamente indispensável para uma alteração radical da relação de forças políticas e militares em Angola e iniciar um novo processo naquele território (que poderia respeitar ou não a data de 11 de Novembro de 1975 para a independência, consoante os novos acordos que fossem feitos), foi, em minha opinião, uma das causas fundamentais (a nas) que conduzem à queda do IV Governo Provisório e à constituição do V Governo Provisório, criando-se assim condições políticas que impediriam por completo a continuação do debate sobre Angola. Quando
se forma VI G.P. já era demasiado tarde (além que as
contradições internas estavam longe de ter desaparecido).
Foi esta a fase, também, que viu mais profundamente comprometida a tese da autonomia do MFA relativamente aos partidos, tese ciosamente defendida pelo chamado grupo dos nove e que não cessou de constituir até hoje uma das traves mestras da sua acção política. Mas
os sectores do MFA que se deixaram infiltrar partidariamente, provocando
rupturas irreparáveis no movimento militar revolucionário,
são também responsáveis pelo que veio a acontecer
em Angola. Influência
dos sectores esquerdistas? Influência do PCP? Ou
pelo contrário, influências dos militares naqueles sectores
e no PCP? Assumo inteiramente as minhas responsabilidades
EXP. Você assume a descolonização que conduziu?
M.A.
Creio que resulta claro de toda esta entrevista que assumo
por completo a minha parte de responsabilidade no processo de descolonização.
Sei
muito bem que foram cometidos erros, alguns deles absolutamente inevitáveis;
outros erros foram consequência da extrema complexidade do próprio
processo revolucionário português; outros ainda derivados
de insuficiências humanas. Não
desconheço também, o sofrimento de muita gente inocente
os dramas pungentes que se abateram sobre muitas famílias portuguesas,
obrigadas a refluir para Portugal (quando muitas delas sentiam como
a sua terra onde viviam e trabalhavam honestamente, há mais
do que uma geração), a tragédia de lares desfeitos
e de bens destroçados, o penoso esforço de adaptação
a Portugal e ao refazer de uma nova vida. Nada disto, porém, foi querido ou sequer admitido por aqueles que, como eu, se lançaram na ingrata mas histórica e necessária tarefa da descolonização. Processo que teria inevitavelmente de produzir feridas e dramas humanos como acontece em todos os momentos de mutação profunda da história.
Feridas e dramas que, apesar de tudo, não tiveram a dimensão
atingida, em circunstâncias semelhantes, noutros lugares. (Jamais
se deram os massacres e os genocídios de que fala
uma certa direita e que ocorreram em outros processos descolonizadores
- embora vítimas haja a lamentar). Poderia
ter sido realizada de outro modo, a descolonização?
Sem dúvida. Mas não entrando neste momento na análise
detalhada das alternativas teoricamente possíveis (já
me tendo referido, em particular, ao longo desta entrevista, a inexequível
e inaceitável alternativa Spínola) quem poderá
em boa consciência garantir que alguma delas teria sido menos
dispendiosa em termos de custos humanos, sociais e até económicos?
Seria,
também, demasiado fácil, e, além do mais, demagógico,
atirar as culpas dos custos da descolonização
para quem teve a ingrata tarefa de executar, fosse a que nível
fosse. As responsabilidades devem e têm que ser assumidas por quem teve de tomar as decisões políticas de fundo. Eu fui um deles e assumo por isso tudo de que fui responsável. Considero, entretanto, lastimável que outros não assumam, como lhes competia, a sua quota parte de responsabilidades. Entrevista de Augusto Carvalho CCP.D- Conselho Cidadania Portuguesa Democrática Assembleia Portuguesa Permanente |