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SALVADOR ST.AUBYN MASCARENHAS: REFLEXÕES SOBRE O ARROJAMENTO EM MASSA DE GOLFINHOS CABEÇA-DE-MELÃO NA ILHA DA BOA VISTA, CABO VERDE
Sábado,
17 de Novembro de 2007: porto de Mindelo, Ilha de S.Vicente, Cabo
Verde. O submarino nuclear americano, USS Annapolis (SSN760) de 109,73
mt de comprimento, faz-se ao mar em missão de patrulhamento
e recolha de informações sobre o tráfico de estupefacientes
e emigração ilegal. Domingo, 18 de Novembro de 2007: morro de Areia, Ilha da Boa Vista, Cabo Verde. 265 Golfinhos Cabeça-de-Melão avançam desorientados em direcção à praia, encobertos pela escuridão da madrugada, arrojam-se um a seguir ao outro e morrem em agonia na areia. Foram
todos enterrados, não se fizeram necrópsias nem recolheram
amostras de nenhum dos animais arrojados. Nos dias seguintes ocorreram
outros arrojamentos, em menor número e também não
há registo de recolha de amostras nem necrópsia de nenhum
dos animais. Os
golfinhos cabeça-de-melão são cetáceos
que se alimentam de lulas e para isso descem a grandes profundidades
("deep divers"), e se forem "bombardeados" pelos
sonares utilizados pelos militares, que são muito potentes
comparados com os sons da natureza, desorientam as suas capacidades
de ecolocalização (procuram as presas por ecolocalização
nas profundezas) e em pânico procuram a superfície rapidamente,
sofrendo por isso um síndrome igual ao dos mergulhadores que
emergem antes do tempo de descompressão, causando libertação
de azoto nos tecidos, com consequente embolia gasosa e gorda e inúmeras
hemorragias pelos órgãos internos, nomeadamente no cérebro
e ouvidos. A
utilização de sonares em manobras militares já
coincidiu várias vezes com arrojamentos massivos de cetáceos
que mergulham em profundidade em que apresentaram lesões semelhantes
às encontradas na "doença do mergulhador".
Alguns Exemplos: - Grécia 1996 - Bahamas, 2000 - Fuertventura,
Ilhas Canárias, 2002 - Açores, 2003 - Florida Keys,
2005 - Baia de Hanaley, Hawai, 2004 É
difícil avaliarmos o real impacto dos sonares na vida marinha,
porque ultrapassa grandemente o número de animais que arrojam
nas praias. Muitos morrem nas profundezas e nunca chegam a nenhuma
costa e, além disso, os que sobrevivem apresentam alterações
comportamentais que poderão pôr em causa a própria
sobrevivência da espécie, visto que são espécies
que utilizam o som como meio de comunicação e em todas
as actividades da sua existência, desde a procura de comida
à corte e reprodução, e foram observados cetáceos
que alteraram os sons que produziam após terem sido submetidos
à violência de sonares militares. É
muito importante que consigamos convencer os militares a introduzirem
restrições na utilização de sonares de
curta e média frequência porque estão a destruir
e a causar sofrimento em espécies que fazem parte da maravilhosa
riqueza da biodiversidade que povoa o nosso planeta. Penso
que poderemos chegar a um consenso em proveito da natureza. Cabo Verde
tem de ser compensado por esta catástrofe ecológica
causada pelo mau planeamento militar e a compensação
deverá ser, a meu ver, em apoio ao estudo da natureza para
que estas tristezas nunca mais habitem as nossas águas. Não tenho dúvidas porque os factos são muito coincidentes. O USS Annapolis deveria sair do seu silêncio para esclarecer os factos, nomeadamente comunicando a sua rota nesse dia e a utilização de sonares. E já agora deveria ser investigado junto dos russos e dos americanos se, em 2003, na altura dos arrojamentos em Santa Luzia e no Maio nenhum submarino "amigo" estaria em voltas aqui do nosso querido arquipélago. Salvador
St.Aubyn Mascarenhas, médico veterinário |