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E AGORA, JOSÉ ! Artigo de GERMANO ALMEIDA
in Asemana nº 852 de 6 de Junho de 2008 Junto de algumas pessoas minhas amigas e próximas do PAICV, assumi o compromisso firme, solene , irrevogável (diria mesmo, a imitar Bill Clinton,"um compromisso consistente") de, até às próximas eleições, não só de não dizer mal do PAI, seja por pensamento ou acções, quanto mais por palavras escritas, como também uma vez por outra, como quem não quer a coisa, arranjar maneira de meter um ou outro discreto louvorzinho às acções do Governo. Na realidade tratou-se
de um negócio: sou perdoado dos dois jantares que o casmurro
Gualberto do Rosário me fez perder, e em troca faço
elogios ao PAICV. Bem entendido que não
posso dizer que tenha sido um pacto extorquido por meios violentos,
assim uma espécie daqueles acordos a que os países vencedores
obrigam os vencidos em guerra, afinal das contas exerci a minha liberdade
de poupar três jantares, um ganho considerável quando
o preço da comida está pelos olhos da cara. Porem, não fiquei
numa situação confortável, porque se há
coisa difícil de fazer neste momento, é inventariar
razões para louvar o PAICV, se até a tinta, dita indelével,
ainda está na minha unha passadas que são duas semanas
sobre as eleições. Assim, sou obrigado a tentar
contornar as coisas, ainda que nem sempre seja liquido. Por exemplo,
dizer que desde o segundo dia deste mandato legislativo que o PAI
começou a pôr-se a jeito para perder essas eleições,
será dizer mal? Não quero admitir
que sim, até porque o próprio presidente do partido
e primeiro ministro já veio à imprensa dizer que assume
a responsabilidade da derrota . Muito bem, mas que significa realmente
essa assunçao de responsabilidade de uma derrota que mesmo
nós que não somos políticos de há muito
víamos anunciada? Ele vai submeter-se a julgamento
( não dos seus colegas do partido, claro, mas do nosso, nós
que o elegemos em nome de um programa que não se mostrou respeitado)
? Na verdade ninguém sabe o que realmente significa esta frase
feita, " assumir a responsabilidade da derrota". Bem entendido
que temos exemplos, basta lembrarmos de como Guterres procedeu em
Portugal, o país de onde copiamos tudo, desde leis a comportamentos:
perdeu as eleições autárquicas de 2001 e demitiu-se
do Governo in continenti, no próprio dia. Mas claro que não
se exige isso do nosso primeiro - ministro. Eu pelo menos não
exijo, não só em nome do meu compromisso consistente,
como também porque a coisa só teria piada se tivesse
sido feita tout de suite imediatamente. O primeiro - ministro confessou-se
chocado com a derrota em Santa Catarina. Não só ele
, sobretudo por outras perdas importantes e derrotas humilhantes,
como essa do PAICV não ter vencido em uma única mesa
de voto na Boa Vista. Assim e passado que seja
o " choque da derrota", porque de uma derrota se trata,
ESTE GOVERNO VAI TER QUE ASSUMIR MUDAR DE POLITICA! Não se
trata de "ter de" , é mesmo um "ter que"
, um imperativo categórico. Sob pena de perder as eleições
Legislativas que se aproximam. Diria que o PAICV vai ter
que escolher entre nós caboverdeanos que não temos dinheiro
mas temos direito a voto, e os investidores estrangeiros com dinheiro
mas sem voto; vai ter não apenas que moderar, como também
justificar, a venda de cada pedaço do único património
que temos, a saber a terra. Vai ter que rapidamente pôr cobro
a essa desenfreada especulação imobiliária da
nossa terra por parte de estrangeiros cuja única preocupação
é enriquecer e partir para outras paragens mais lúdicas. É preciso dize-lo com toda a clareza: o sonho tão nobremente acalentado e elevado ao seu ponto triunfante no 30º aniversario da independência , foi matado. O orgulho nacional, espezinhado nos anos do Governo MpD, mas ressuscitado pelo PAICV na campanha do inimitável slogan " POR AMOR À TERRA " , foi de novo sacrificado neste segundo mandato de forma cruel e injusta. Porque de novo deixamos
de sentir esta terra como nossa, e agora de forma mais humilhante,
porque afinal de contas o MpD tinha vendido empresas públicas,
enquanto o PAICV está a vender a própria terra, seja
do Estado, seja de privados que expropria sem respeito pela lei. Assim, alguém, não sei quem, mas alguém tem a dizer a este partido no poder que está a agir mal. Alguem tem que dizer ao PAICV que ele é um partido que de alguma forma se afirma de esquerda, e as pessoas esperam dele uma politica ideologicamente consequente. As pessoas têm que
saber que votar os partidos A ou B ou C não é apenas
escolher entre as pessoas mais ou menos simpáticas ou bem falantes.
Ora quando é o líder da oposição que vem
chamar a atenção para o facto de o Governo não
poder negar que " há mais desigualdades sociais em Cabo
Verde e que o fosso entre ricos e pobres aumenta todos ois dias no
País" e que é preciso haver mais solidariedade
e mais justiça social, parece estar-se na hora de se impor
um posicionamento politico do partido. Porque não basta saber-se
o que é melhor para o povo de Cabo Verde; é preciso
que o povo acredite que a politica que está a ser seguida é
a melhor para ele e para o país. Diria que a grande tragédia de todos os nossos políticos é acreditarem que a pouco e a pouco acabam ficando infalíveis e a sua palavra vira dogma. Mais: perderem a consciência de que esta terra continua a ser uma pequena aldeia onde todos nós nos conhecemos e onde os nossos comportamentos estão a todo o momento a serem avaliados. Ora o PAICV parece ter-se
de novo esquecido disso. De contrário, como compreender o sufoco
a que está sujeito um pequeno numero de nacionais, enquanto
os estrangeiros desfrutam à tripa fora das maiores facilidades? Como compreender que para os cargos ou simples prestações de serviço mais insignificantes se tenha o dedo certo indicando um militante ou um próximo disso? Como compreender o monumental e continuado erro que tem sido a gestão dos TACV, a ponto de uma militante do PAICV me ter confidenciado que a palavra d'ordem geral nestas autárquicas foi " votar Ulisses para eles aprenderem " ? Ou o desrespeito dos direitos dos proprietários das terras da Boa Vista que não ignoram que as exigências exageradas que lhes têm sido impostas estão longe de serem as mesmas feitas em outras ilhas? Ora, se a tudo isso juntarmos o grave atentado aos direitos dos trabalhadores constante do novo código laboral,, uma lei que o Ministro do Trabalho disse ter sido mais e mais consensual de todas as feitas em Cabo Verde, mas que na verdade foi capaz de repudiar a regra sagrada dos " direitos adquiridos", apanágio dos trabalhadores reverenciado desde 1848 na ordem jurídica que herdamos, aliada à insegurança que grassa pelo país, não apenas a insegurança psicológica , mas também a insegurança física, evidente na incapacidade de se pôr cobro ao crescente clima de impunidade de crimes graves - será fácil compreender essa derrota que está exigindo que o PAICV vá escarafunchar no fundo do baú em busca de algum resto da sua primitiva ideologia ao lado dos trabalhadores e dos demais desfavorecidos e se reposicionar em conformidade. De contrário, que
proponha então uma fusão ao MpD; é absurdo termos
a degladiar na sociedade dois partidos de idêntica matriz ideológica. |